O principal escroque da atualidade republicana, Waldomiro Diniz, se disse envergonhado ao depor durante algumas horas perante a Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro para apurar as irregularidades na Loterj e na Rioprevidência. Seria uma vergonha local, ou estadual, de menor importância, não fosse este o mesmo Waldomiro que já andou causando outras vergonhas em âmbito federal, incluindo entre os ilustres envergonhados o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o capitão do time do presidente Lula (seguramente também envergonhado), que se declarou inconformado com sua própria “in-com-pe-tên-cia” ao não perceber o que o ex-assessor parlamentar fazia à sua volta.

Além de envergonhado, Waldomiro se diz vítima das chantagens armadas pelo empresário de jogos Carlinhos Cachoeira, a quem foi pedir um por cento de toda a jogatina para ajudar um amigo – infelizmente já morto! -, que passava por dificuldades provocadas pelo próprio achacado. Declarou-se, ele próprio, um homem chantageado pelo mesmo Cachoeira e se emocionou ao pedir desculpas à nação. Mas confirmou o que já antes dissera: foi intermediário na remessa de dinheiro “doado” (outra bondade!) por Cachoeira para a campanha do candidato Geraldo Magela, do PT em Brasília, durante as últimas eleições. E revelou o nome – um tal Paulinho – de quem recolheu a preciosa contribuição.

É preciso, sem mais delongas, dizer que nós também estamos envergonhados. Há muito tempo. E mais assim ficamos ouvindo as vergonhas explícitas de Waldomiro, uma vítima que pede desculpas, chora e ainda por cima se revela um benfeitor… Nesta república de envergonhados, batemos no peito e perguntamos por qual motivo não fomos ouvir antes o homem que causou paralisia geral no governo federal ao aparecer naquela fita gravada num aeroporto enquanto conversava com Cachoeira, detonou uma crise sem precedentes no governo do PT, desmontou a carapaça ética do partido criado na intransigência, fez meio-mundo da política engalfinhar-se quase em luta campal para evitar CPIs no Congresso Nacional, motivou medida provisória e urgente pelo fechamento de bingos, com isso causando desemprego a milhares e, de quebra, forçou a criação de uma “agenda positiva”, enquanto detonava outra campanha contra o Ministério Público pego em flagrante trabalhando altas horas da madrugada…

De fato, se antes ele tivesse falado (ou se tivessem deixado que ele falasse), muita coisa de sério e grave que aconteceu no País desde antes do Carnaval poderia ter sido evitada. Incluindo essa monótona repetição do presidente Lula em socorro ao ministro ex-amigo e protetor de Waldomiro, ainda longe de microfones e câmeras, morrendo de vergonha: “Dirceu está mais ministro do que nunca”, reafirmou o presidente no mesmo dia em que o escroque chorava na Assembléia carioca.

Ora, falando sério, precisava que outros em Brasília deixassem suas vergonhas de lado e decidissem passar essa história a limpo de uma vez por todas, instalando a CPI solicitada, mas não iniciada devido a recursos menos ortodoxos, para não dizer envergonhantes, utilizados pelo presidente do Senado, José Sarney. Está provado que Waldomiro não tem culpa de nada, que suas intenções sempre foram as melhores possíveis e que tudo não passou de um tremendo equívoco. Que foi uma injustiça sem precedentes deixar que as desconfianças se alastrassem para o gabinete do ministro Dirceu, a quem sempre serviu com lealdade e com quem chegou a conviver. Que continua sendo maldade pura suspeitar que atrás da dupla Cachoeira-Diniz funcionava um esquema de arrecadação de recursos para campanhas políticas. Que outro esquema em curso tinha um braço na Caixa Econômica Federal, controladora dos jogos havidos como legais neste País de envergonhados, e aí por diante.

Estamos, de fato, todos envergonhados. Mas a nossa vergonha, ao contrário daquela externada pelos sem-vergonhas, até aqui não comoveu ninguém.