O antropólogo e professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, George de Cerqueira Leite Zarur, iniciou sua explanação na audiência pública sobre adoção de cotas para ingresso no ensino superior afirmando, categoricamente, que “a etnicidade tem sido a causa das maiores tragédias da humanidade”.
Esta foi a razão pela qual, segundo ele, tem dedicado toda sua vida acadêmica à questão da etnicidade.

Pesquisador PHD pela Universidade da Flórida e pesquisador-visitante da Universidade de Harvard, George Zarur afirmou que “assiste com apreensão a introdução de políticas raciais no Brasil”, ao lembrar seus antepassados no Líbano e outros povos perseguidos por questões raciais.

“Assim como meus avós, árabes – cristãos e muçulmanos, judeus, armênios, ciganos e muitos outros povos vítimas do horror étnico, encontraram no Brasil a tolerância que não tiveram em suas terras de origem”, afirmou o professor, ao defender a diversidade e a unidade brasileira e manifestar também sua preocupação com a política de raças para as questões indígenas.

Ele citou ainda a questão dos pobres “de todas as origens e cores da pele, que “cederão seus empregos e as oportunidades de educação de seus filhos, a outros nem sempre tão pobres. Lembro em especial dos sertanejos nordestinos, como vão explicar aos favelados sertanejos que um tem direito à cota, por causa da cor da pele e outro não?”, questionou o professor.

Reparação histórica

“Não se pode distinguir as pessoas pela aparência ou pela raça”, disse o pesquisador ao citar o antropólogo Darcy Ribeiro e prosseguiu: “no que se deduz que não se aplica neste caso a regra de se tratar desigualmente os desiguais, pois seres humanos, pretos, brancos, ou quaisquer outros não são desiguais”.

Dessa forma, o antropólogo George Zarur rebateu a política de cotas raciais para o acesso ao ensino superior como forma de fazer uma reparação histórica. “O crime de racismo se combate com leis penais e não com mais crime de racismo, agravado pela co-autoria do estado que deveria coibi-lo”, criticou.

Segundo ele, a expressão “discriminação positiva representa uma contradição em termos, pois toda discriminação é negativa. É o mesmo que falar em crueldade positiva ou tortura positiva”.

Ele defendeu boas escolas públicas e cotas sociais e não, raciais, além da adoção de políticas sociais de combate à pobreza que beneficiem toda a população necessitada e não apenas uma parcela, no que chamou de “racismo travestido de políticas de estado”.

Ao concluir sua explanação, o antropólogo George Zarur falou diretamente ao Supremo Tribunal Federal, como instituição máxima do Judiciário brasileiro: “Esta Corte não julga apenas o sistema de cotas da UnB, mas a racialização que despreza a mestiçagem que forjou o povo brasileiro, afronta a dignidade do cidadão e fere a unidade nacional”.