Quando Lula era candidato, desde a primeira vez até a última, quando saiu vitorioso, as forças conservadoras da sociedade brasileira sempre temeram que a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder levasse a um violento processo de socialização no País. Essa socialização não se traduziria apenas na aplicação de políticas que beneficiassem as classes menos favorecidas, objetivo aceito pelos grupos que não são de esquerda. Seria um processo impositivo, senão até violento, de socialização da propriedade, com quebra do direito constitucional que o assegura; uma redistribuição de rendas pela força; estatização dos meios de produção, do ensino, da saúde etc. Enfim, algo parecido com o que foram, e ainda são de forma mais limitada, os regimes marxistas que remanescem no mundo. As forças que temiam Lula eram consideradas reacionárias. As que o apoiavam, revolucionárias.

Nos últimos tempos, pelo fracasso dos governos de centro, centro-direita ou neo-liberais, como foi apelidado o de FHC, pregou-se com bons resultados o “sem medo de ser feliz”, em favor da eleição de Lula e acesso ao poder do seu partido, o PT. Ajudou a elegê-lo essa pregação, a do Lula “light”, de “paz e amor” e, sem dúvida, a ignorância de parte da sociedade sobre o que seria um regime socialista. A evidência dos problemas sociais e da necessidade de buscar-se uma solução para eles, fazia com que socialismo parecesse apenas a preocupação com os desassistidos e não uma ideologia com fórmulas para assisti-los.

Eleito Lula e assumindo o poder o PT, tudo saiu diferente. Em primeiro lugar, o PT chegou ao poder associado a grupos e partidos sem nenhuma afinidade com a pregação petista. Lula, de sua parte, principalmente no campo econômico-financeiro, vem mantendo um governo conservador e mais à direita até do que o de seu antecessor, FHC. Onde a agitação tão temida e anunciada pelos adversários de Lula e do PT? Onde estão as forças de esquerda lideradas por Lula que instalariam no País um regime que não respeitaria o direito de propriedade, as leis de mercado e imporia as classes trabalhadoras sobre a até aqui dominante burguesia?

No governo, esses revolucionários se comportam como os neoliberais que sempre condenaram, com a única diferença de que, nas reformas que propõem ao Congresso, como a tributária e a da Previdência, fazem valer um pesado rolo compressor. Mas as reformas que propõem são as mesmas que propôs Fernando Henrique Cardoso. E não conseguiu vê-las aprovadas porque não pode, não soube ou não quis usar um rolo compressor sobre o Congresso.

Não obstante, a agitação e a revolução tão temida está acontecendo, senão promovida pelo governo, aos seus olhos e parece que tolerada. Já sustentamos que as invasões de terras, edifícios particulares e prédios públicos, realizadas por sem-terras e sem-teto se realizam porque há um caldo de cultura apropriado. Os invasores são gente paupérrima e desesperada. Mas é certo que, por detrás de seus movimentos, encontram-se aqueles revolucionários de esquerda que querem é a mudança do regime e o assalto ao poder. Resta saber se tudo isso não é um plano previamente estabelecido e orquestrado. Um governo vindo da esquerda, comportado dentro das normas da democracia e respeitoso a inúmeras normas do sistema capitalista e, de outro lado, agitadores dispostos a criar uma situação revolucionária.