Não há conciliação possível entre a política econômica do ministro Antônio Palocci e a ala mais à esquerda do PT. Somemos a esta os ex-petistas, parlamentares expulsos do partido por terem posição ortodoxa de esquerda contrária à política econômica e a pontos essenciais das reformas, em especial a e da Previdência. Mas não são só estes os oposicionistas que abandonaram Lula. Existem também os intelectuais do partido, simpatizantes da agremiação e ainda militantes que discordam da posição, em matéria de economia e finanças, da atual administração federal. Todos esses grupos entendem que, sob Palocci e com o aval de Lula, realiza-se no Brasil uma política mais à direita que a de FHC e que ela, ao exigir superávits primários elevados, furta recursos das reformas sociais. Repugna a eles, que Palocci qualificou como padecentes de esquerdismo, a doença infantil do comunismo (relembrando frase de Lênin), o fato de o Brasil sob Lula seguir as receitas do Fundo Monetário Internacional e servir-se de seus empréstimos. Mais ainda, que o nosso ministro da Fazenda elogie o Fundo e deste receba seguidos aplausos.

Estranha, como disse o deputado federal do PT Ivan Valente, que o ministro tenha incorporado “dogmas neoliberais que o contaminaram até a medula”. E acrescenta: “Eu nunca vi darem ao FMI mais do que ele pediu. Só o Palocci fez essa loucura”, referindo-se ao fato de o governo Lula ter obtido superávits primários acima dos 4,25% acordados com o FMI.

Esses descontentamentos da esquerda do PT, que, já por definição, era um partido de esquerda, partem de um grupo ultra-esquerdista. Não se limitam às manifestações dos seminários que vêm fazendo nos estados e ao documento por eles lançado, denominado “Declaração de Páscoa”, síntese do encontro “Queremos um outro Brasil”. Vão além, pedindo a cabeça do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Porque o ministro tem o apoio e aval irrestritos de Lula, não estão muito longe de manifestações buscando abalar o próprio presidente. Conspiração? Talvez nem tanto, mas mais eloqüente que a imaginada pelo ministro da Justiça, quando procuradores investigaram, de madrugada, as relações de Waldomiro Diniz com bicheiros. Seriam para inculpar o ministro José Dirceu e, via ele, o próprio presidente Lula. Aqui, tudo indica que se viu chifre em cabeça de cavalo.

O movimento contra a política econômica do governo não se limita à ultra-esquerda interna, ainda do PT. Também dele participam os que, expulsos da agremiação situacionista, estão fazendo seminários pelos estados, procurando formar um novo partido esquerdista, sob a liderança da senadora alagoana Heloísa Helena. Por outros motivos e do lado ideológico oposto, ocorrem descontentamentos e agora até defecções nas forças situacionistas do PL, agremiação do vice-presidente da República. A bancada liberal no Senado acaba de se desligar do governo e são conhecidas as repetidas tomadas de posição, contrárias à política econômica atual, do vice José Alencar.

Tudo isso ocorre num ano eleitoral e é de se admirar a firmeza de Palocci. Ele não está condicionando a política econômica aos interesses eleitorais deste ano. Segue em sua política impopular, talvez certa, e Lula o apóia. O governo está dando munição para os que esperam ganhar-lhe as eleições municipais que se aproximam.