Brasília – Os empreendimentos vencedores do leilão de energia nova, que será realizado pelo governo federal no final de maio, precisarão ser concluídos até 2010 para impedir uma nova ameaça de racionamento no país. Essa é a conclusão de estudo divulgado pelo Instituto Acende Brasil, entidade criada em 2006 pela Câmara Brasileira dos Investidores em Energia Elétrica para fazer o monitoramento permanente da oferta de energia no Brasil.

Segundo o documento, as chuvas no início deste ano contribuíram para afastar o risco de desabastecimento de energia em 2007 e 2008. No entanto, em 2009, o risco de racionamento na região Sudeste, principal consumidora de energia do país, subirá para 5%, o maior limite considerável aceitável pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Em 2010, esse indicador aumentará para 8% e chegará a 14% em 2011, quase o triplo do recomendado.

O relatório ressalta que o aumento do risco de racionamento não significa necessariamente que ocorrerá um novo apagão nos próximos anos, mas não descarta a possibilidade com um eventual desabastecimento. ?Ainda não há motivo para alarme, mas concluímos que, se o nível de investimento se mantiver dentro do previsto, o país passará a depender cada vez mais das chuvas a partir de 2010 para não haver apagão?, explica o presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Sales.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê o acréscimo de 12.386 megawatts na geração de energia neste e nos próximos três anos. Apesar desse aumento na oferta, Cláudio Sales, afirma que as obras do PAC são insuficientes para evitar o aumento do risco de apagão. ?Em relação ao setor elétrico, é importante esclarecer que o PAC, na verdade, pretende mais acelerar a conclusão de obras já previstas do que investir em projetos novos?, diz Sales.

Sales ressalta que o risco de racionamento ainda pode ser estabilizado pelo aumento da oferta de gás natural e pelo leilão que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) promoverá em 24 de maio para suprimento de eletricidade a partir de 2010. Ele porém afirmou que, mesmo se o leilão for bem-sucedido, as obras dos projetos vencedores precisarão ser apressadas. ?O ideal é que esses empreendimentos comecem a funcionar já no prazo estabelecido pelo leilão para que o país não corra perigo de enfrentar um eventual apagão?, avalia.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia encarregado de planejar a política energética nacional, para esse leilão estão cadastrados 177 empreendimentos que somam 20.096 megawatts de potência. A quantidade de energia que será contratada desse total, no entanto, só será conhecida após o leilão.

Para Sales, a necessidade de obras rápidas trará reflexos sobre a composição das fontes de energia do país. Como a construção de uma usina hidrelétrica, principal fonte limpa de energia utilizada no Brasil, leva de quatro a cinco anos (caso não haja pendências ambientais), Sales afirma que o setor elétrico terá de recorrer cada vez mais às termelétricas, que funcionam com combustíveis fósseis e são poluentes e caras. ?Infelizmente, o país terá de recorrer a fontes sujas de energia, como óleo diesel e carvão, para conseguir atender ao crescimento da demanda?, lamenta Sales.

O presidente do Instituto Acende Brasil ressalta que a maior participação das termelétricas na geração de energia resultará em energia mais cara para o consumidor. Mesmo assim, Sales que isso será melhor que um possível racionamento. ?Quando o país teve de alugar usinas termelétricas durante o apagão de 2001, o custo da geração em caráter de emergência foi ainda maior?, ressaltou.

Os dados da EPE mostram que as termelétricas prevalecem entre os empreendimentos que participarão do leilão. Dos mais de 20 mil megawatts cadastrados, 69,2% são movidos a combustíveis fósseis. Procurado, a assessoria do presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, anunciou que ele deve se pronunciar sobre o relatório nesta semana.