Durante anos, grande parte das pesquisas sobre desigualdade dedicou-se a estudar os motivos da pobreza. O economista Marcelo Medeiros faz parte de um grupo, ainda pequeno, que estuda a outra ponta da pirâmide social: os ricos.

Segundo ele, essas pesquisas seriam a porta de entrada para a redistribuição de renda no Brasil ? que de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU), é o oitavo país mais socialmente desigual no mundo, na comparação de 177 países.

"É óbvio que para resolver a desigualdade será preciso ter redistribuição, tirar de um grupo e dar para o outro. Mas não pode ser uma distribuição Hobin Hood, irresponsável. Não pode simplesmente sair taxando os ricos, criar impostos. Então, é preciso conhecer melhor esse grupo, para saber como ele pode ser melhor taxado", diz Medeiros.

A pesquisa de Medeiros, que recebeu o prêmio de melhor tese do Brasil pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), foi publicada em 1999. Pelos cálculos atuais do economista, seria rica a família que recebe cerca de R$ 3.500 per capita. Ou seja, uma casal que ganhe R$ 7 mil, ou um casal com duas crianças que some R$ 14 mil ao final do mês.

A definição é controversa, e muitas pessoas recusam-se a admitir que são ricas. "Existem estudos no mundo sobre auto-classificação na hierarquia social, e as pessoas usam eufemismos. Por exemplo: sou classe média baixa, ou sou classe média alta. Raramente dizem sou pobre ou sou rico", diz o economista.

Por que os ricos são ricos, afinal? O trabalho de Medeiros aponta alguns caminhos, mas principalmente descarta grandes mitos populares. Pobreza (ou riqueza) não está ligada ao tamanho da família, ao volume de trabalho ou à educação.

"As explicações clássicas não valem. Os ricos trabalham duro, mas isso não é suficiente para explicar a riqueza. Nem o número de filhos. A educação também não é o passaporte para entrar no mundo dos ricos. É provavelmente condição necessária, mas não é suficiente. E é mais fácil ser rico no Sudeste que no Nordeste".