(em homenagem a Luiz Romaguera Netto)

O autoconhecimento é processo psíquico que consiste no esforço para se atingir a essência do verdadeiro Eu. Partindo da experiência errônea que separa o seu espírito de tudo o mais, o objetivo final do autoconhecimento é a minha identificação com todas as coisas (Tu és Aquilo!). O autoconhecimento é a consolidação de um processo simbólico gerado a partir da capacidade identificadora de nosso espírito, dando-nos a impressão da existência de um substrato ecológico, inato, dominando o corpo e a mente. Esta é uma ilusão causadora de domínio, separação e competição do Eu.

Por paradoxo, o autoconhecimento consiste no sentir consciente do Eu a partir do Outro, a efusão extática do encontro vivenciado, casual, mas extraordinário, tomado como único e incomum. É a identificação ocasional revestida de emoção, que entrelaçam dois Eus que momentaneamente se cruzam. Isto é comum, mas depende de aprendizado, como no encontro de uma flor, no sentimento de amizade, nas relações amorosas, na oração, nos exercícios de meditação, nas ocasiões de perda, nos quais a percepção influente do Outro faz brotar em nós uma estranha sensação de alegria ou tristeza, compartilha, posse ou admiração.

Por isso, os caminhos do autoconhecimento estão perpassados de sensações estranhas de completude ou vazio, na mesma medida em que, em nosso interior, se intensificam as experiências de identidade ou diferença, a promação ou afastamento. Maria Madalena contemplou Cristo ressuscitado com um misto de alegria e tristeza, ao vê-lo distante de nossa condição mortal. (cfr. Jo: 20:1-18)

A complexidade do processo de autoconhecimento nos indica a existência de quatro etapas evolutivas:

1.º) Caminho dos sentidos: estes são o primeiro momento de manifestação de nosso ser. Ilusórios e confusos, necessitam ser controlados por um processo de disciplina e depuração, mesmo que nunca indiquem a substancialidade do Eu, que surge como agregado de sensações.

2.º) Caminhos do simbólico: a percepção do simbolismo de nossa racionalidade ou de nossas idéias é a etapa seguinte no processo de caracterização do autoconhecimento. Estar no caminho da percepção imaginativa de tudo que possa ser compreendido pela nossa inteligência é dar asas ao encontro com o virtual. Aqui o Eu representa um halo de substancialidade.

3.º) Caminho místico: o misticismo ultrapassa o simbólico, na medida em que o Eu se vê imerso na realidade plena do Outro que o domina, como acontece no arroubo extático da oração, no vazio pleno da meditação, nos momentos de percepção espontânea, de uma presença. Agora passamos a sentir que o Eu só é consistente quando referido a um Outro que o inspira. O Eu não é mais um objeto, mas é relação de sentido.

4.º) Caminho moral: se minha identidade só se dá a partir da experiência do Outro, temos que pensar que a prioridade é do Outro que antecede o meu Eu. Tudo o que acontece com ele me diz respeito. Assim, me alegro com sua alegria, sofro com seu sofrimento; a sua morte é também a minha. Mas compartilho também de sua eternidade, na efusão sentimental de nosso convívio, de nossas lembranças e de nossa fé inquebrantável no primado do espírito.

Antônio Celso Mendes

é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e pertence à Academia Paranaense de Letras.