Os ex-diretores do Grupo Leão Leão, os irmãos Luiz Cláudio Ferreira Leão e Carlos Alberto Ferreira Leão, além de quatro secretárias da empresa, serão intimados a depor pela Polícia Civil, a partir da próxima semana no inquérito que apura superfaturamento no serviço de varrição de rua, peculato, corrupção de agentes públicos e falsidade ideológica. Cláudio e Alberto Ferreira Leão foram citados pelo advogado Rogério Tadeu Buratti, no depoimento, como testemunha, de sábado (04), como os diretores da época que, excepcionalmente levavam a propina de R$ 50 mil mensais aos então prefeitos da cidade, Antônio Palocci (2001-2002), atual ministro da Fazenda, e Gilberto Maggioni (2003-2004), além do ex-secretário da Fazenda da prefeitura na gestão do ministro, Ralf Barquete Santos, que morreu. A gráfica Villimpress ainda teria contribuído com a campanha eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, com material publicitário, e o Ministério Público Estadual (MPE) irá apurar a denúncia, mas nenhum procedimento de investigação foi aberto ainda.

Até sábado, o nome de Santos era citado como intermediário da propina entre o Leão Leão e Palocci, além do ex-secretário de Governo Nelson Collela, no período de Maggioni. Os testemunhos de Luiz Cláudio e Carlos Alberto Leão (que era presidente da Leão Engenharia até dezembro de 2003, quando a empresa fez a cisão do grupo), que não havia sido citado, anteriormente, ainda não foram marcados, pois a Polícia Civil e o MPE farão uma "diligência" nesta semana. Eles, além de Buratti e do engenheiro Wilney Barquete, eram os diretores do Leão Leão no início da década. As secretárias (de prenomes Dinah, Sônia, Fernanda e Adriana), que ainda continuam a trabalhar na empresa, segundo Buratti, teriam informações do esquema de propina aos prefeitos.

Os R$ 50 mil mensais do município seriam destinados ao Diretório Nacional do PT, às mãos do ex-secretário nacional de Finanças e Planejamento do partido Delúbio Soares, mas o ministro da Fazenda e Maggioni negam que tenham recebido os valores citados pelo advogado. "Além do pagamento de R$ 50 mil à prefeitura, o prefeito Palocci, praticamente, mantinha uma reserva junto à empresa Leão, que era cobrada no período eleitoral, cuja quantia, às vezes, era declarada", diz um trecho do depoimento ao qual a reportagem teve acesso. Essa "reserva" seria destinada a fins eleitorais ou a outros gastos indicados por Palocci. Notas frias de pelo menos duas empresas (Twister e Comercial Luizinho) eram usadas, segundo Buratti.

No testemunho, ele citou que havia um acerto entre Palocci e o ex-prefeito de Ribeirão Preto, que estabeleciam os valores mensais, entre R$ 1,8 milhão e R$ 2 milhões, com os gastos com a limpeza urbana (coleta de lixo e varrição de rua, entre outros serviços), uma forma de reequilibrar o contrato vencido por preço baixo. O que reforça a confiança da Polícia Civil e do MPE é que Buratti afirma que, como então diretor do Grupo Leão Leão, participou de uma das duas reuniões das quais tem conhecimento entre o ministro e a diretoria da empresa. No segundo encontro, os valores teriam sido sugeridos pelo Leão Leão e o prefeito, definido os serviços que deveriam ser prestados. Além de Santos e dos irmãos Leão, outros funcionários poderiam ter levado a propina, diretamente, à Secretaria da Fazenda, para as mãos do primeiro, que, então, repassava os valores ao diretório nacional da legenda.

As fraudes nas medições da varrição seriam a justificativa para o aumento nos valores repassados pela prefeitura à Leão Leão.

Na gestão de 2000, anterior a Palocci, o contrato do lixo rendeu R$ 962,6 mil à Leão Leão em dezembro, quando começou o serviço. A partir de 2001, o valor sempre superou R$ 1 milhão mensais, totalizando R$ 15,3 milhões no ano. Em 2002, o montante chegou aos R$ 20,6 milhões. Em 2003, a soma foi de R$ 23,6 milhões. Em 2004, a Leão recebeu R$ 26,5 milhões (oito pagamentos na ordem de R$ 2,3 milhões). Entre 2001 e 2004, a Leão recebeu R$ 86,3 milhões da administração municipal. Buratti confirmou que o lucro da empresa, ainda assim, era de 15%. A partir de 2005, na gestão tucana do ex-prefeito Welson Gasparini, os valores pagos pelo contrato do lixo diminuíram.

A Polícia Civil termina uma perícia técnica com os valores pagos pelo Executivo municipal, o serviço realizado e o que não foi feito. A reportagem obteve a informação de que a fraude nos números podem chegar à média de R$ 1 milhão mensal, totalizando cerca de R$ 48 milhões em quatro anos da gestão petista. A polícia não confirma os valores e a perícia deverá ser concluída em pelo menos dez dias. O delegado seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antônio Valencise, fala apenas na existência do esquema três por um – para cada um real executado, 2 reais eram fraudados.

Eleição

Segundo o promotor Tiago Cintra Essado, do Grupo de Atuação Especial Regional para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado (Gaerco), o MPE deverá instaurar nos próximos dias um procedimento de investigação para apurar um suposto crime eleitoral praticado pela sigla na campanha presidencial de 2002. Os gastos com material publicitário produzido pela Villimpress, na campanha de Lula, pagos pela Leão Leão, teriam sido omitidos pela agremiação à Justiça Eleitoral. O ex-gerente-financeiro da gráfica Luciano Maglia disse, em 2005, em depoimento, que a Leão havia produzido material para o PT, citando ainda o ex-chefe de Gabinete do Ministério da Fazenda Juscelino Dourado e o diretor-superintendente do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) Donizeti Rosa, como envolvidos no esquema. Dourado e Rosa negaram.

A Villimpress não era cliente constante da Leão Leão. Buratti citou "que a Leão pagou material de campanha produzida pela Villimpress para o PT, tratando-se da campanha de 2002, para presidente e, talvez, até de prefeito no ano 2002 ou 2002", disse no depoimento. Na planilha encontrada num computador apreendido na Leão Leão, em setembro de 2004, constavam vários nomes de políticos e de cidades da região de Ribeirão Preto, que teriam recebido doações da empresa e que a polícia e o MPE investigam. Buratti confirmou que sabia dos pagamentos a dois candidatos de Ribeirão Preto em 2004, mas não identificou quais seriam. Pela planilha, R$ 800 mil seriam gastos com as iniciais RJP (R$ 300 mil) e RLP (R$ 500 mil), ainda não identificadas, entre maio e dezembro daquele ano. Três candidatos a prefeito registraram doações que totalizaram R$ 327 mil naquele ano.

Para Valencise, o dinheiro doado pela Leão Leão na campanha eleitoral interessa pela fraude da varrição de rua, mas a apuração de crime eleitoral terá que ser feita na Justiça Eleitoral, após um posicionamento do MPE. Sobre as citações de Buratti, envolvendo o nome de Palocci, Valencise é cauteloso. "Todas as provas caminham para ele (Palocci)", comentou, mas avisando que ainda tem investigações a fazer. Em nota, a Direção Nacional do PT informou que "não tem nenhum conhecimento sobre o assunto". Em nota, a Assessoria de Imprensa da Leão Leão reafirmou que nunca houve pagamento de propina de R$ 50 mil aos prefeitos, que "utilizou a gráfica Villimpress para produção de material gráfico para suas necessidades internas", devidamente contabilizadas, além de reafirmar que as doações de campanha ocorreram "de acordo com as leis eleitorais e que todos os documentos que comprovam o fato estão na Justiça Eleitoral e à disposição do público".