Rio (AE) – Ligações telefônicas interceptadas pela Polícia Civil do RJ mostram o relacionamento entre celebridades e um dos traficantes mais procurados do Estado, Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi. Ele chefia a quadrilha que lidera o comércio de drogas na favela da Rocinha. Uma das pessoas que teve conversas gravadas foi Júlio César, goleiro da Seleção Brasileira e da Inter de Milão. Ele será intimado a prestar esclarecimentos.

Por um rádio-transmissor que seria de um amigo comum, o jogador alerta o bandido quanto aos assaltos a automóveis ocorridos em frente ao morro. Ele conta que, ao passar de carro por ali, viu um outro veículo ser roubado por "moleques" da Rocinha. Diz que conhece as regras da favela, segundo as quais quem rouba nas redondezas é morto a mando do tráfico.

"Eu tô sabendo que aí não pode, né? A galera aí do morro não pode pegar nada de ninguém aqui embaixo, por isso é que eu estou dando essa idéia", afirma Júlio César, conforme publicado hoje pelo jornal carioca "Extra".

O goleiro se identifica com suas iniciais, J.C., e demonstra intimidade com o criminoso ao tratá-lo por um apelido, "Bill". O bandido deixa claro o que aconteceria com os ladrões: "Ninguém aqui é maluco não. Eles sabem que morre."

O goleiro confirmou a conversa ao "Extra", mas disse que não é amigo de Bem-te-vi. Alegou que preferiu falar com o traficante do que procurar a polícia pois naquela área o bandido teria mais poder do que os policiais.

A reportagem não conseguiu contato com o jogador.

O chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, quer que ele seja intimado, na condição de testemunha, para informar quem é a pessoa que intermediou os telefonemas dele para Bem-te-vi.O grampo foi feito com autorização da Justiça, pelo setor de investigação da Polícia Interestadual, a Polinter.

A chefe do serviço, Marina Maggessi, contou que outras pessoas famosas tiveram as vozes registradas, mas não revelou identidades. "Tinha de tudo: jogadores de times de futebol cariocas, ator, atriz, modelo, pagodeiro, diversas celebridades. Muita gente deve estar com medo nesse momento, com medo de seu nome ser citado."

Ela criticou esse tipo de conduta: "Isso legitima o poder de um tirano. Eu não consigo entender. Quando eles chegam às comunidades carentes o traficante vai procurar. Eles querem aparecer como chefões e promovem festinhas para as celebridades" explica. "Agora, a pessoa voltar à favela, ficar ligando para o traficante, se tornar amigo dele, isso eu não entendo."

Bem-te-vi chega a emprestar fuzis de sua coleção para os famosos que visitam a favela segurarem, disse Marina. "Ele tem mania de distribuir balas de fuzil a quem vai lá, como se fosse um souvenir da Rocinha." Ela lembrou que não é crime simplesmente dialogar com um bandido, uma vez que as ligações não mencionam compra de drogas ou armas.

A conversa entre Júlio César e Bem-te-vi foi gravada este ano. As investigações sobre a quadrilha do traficante levaram à prisão, no mês passado, do carteiro Saulo Sá Silva, que usava uma motocicleta dos Correios para entregar maconha e cocaína em favelas do Rio. Outras 17 pessoas envolvidas no esquema foram presas.