Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha assumido o papel de líder das oposições, como quer o presidente do PT, José Genoino, pouco importa aos milhões de brasileiros. Importante é verificar o conteúdo das mais sérias críticas já feitas por FHC a seu sucessor, em socorro de quem um dia chegou a pedir a boa vontade de todos e a cujo governo estendeu tapetes vermelhos tão logo saíram os resultados eleitorais. Falando de coisas maiores e menores (o presidente Lula disse recentemente que não pode perder tempo com coisas menores), o ex-presidente considera que nada maior existe do que dar ao País um horizonte de futuro. Coisa que está faltando, infelizmente.

A análise foi estampada em artigo publicado domingo no jornal O Estado de S.Paulo. Nele, FHC analisa os mais recentes queixumes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já se demonstra desconfortado com críticas e futricas e chegou a advertir que não tem os poderes de Deus para fazer tudo o quando lhe cobram (e também que prometeu enquanto candidato). E, mais: que o País está “altamente vulnerável” – uma observação muito infeliz. O que coloca em risco o futuro do Brasil é a falta de um projeto de longo prazo, capaz de acentuar as mudanças que já estavam em curso nas políticas sociais e na máquina estatal, escreveu “quem já passou pelas alturas e também pelas agruras e vertigens do Planalto”.

Segundo o ex-presidente, o erro do governo Lula é de base e começou com a repetição demagógica de ter recebido uma “herança maldita”, em vez de reconhecer com palavras o que reconheceu na prática desde a assinatura do acordo com o FMI em 2002, antes mesmo de assumir. Isto é, que as dificuldades daquele ano derivaram da percepção pelas pessoas e pelos mercados de que haveria uma “ruptura” que, feliz ou infelizmente, não houve.

Depois de afirmar que Lula perdeu uma excelente oportunidade na esteira das condições internacionais favoráveis, FHC diz que nada justifica a visão de uma vulnerabilidade intrínseca de nossa economia. Os problemas estariam, segundo o ex-presidente, em casa, isto é, no próprio governo do PT: “A sensação de mal-estar registrada pelo presidente vem da inoperância gerencial e dos recursos na regulação de uma economia moderna de mercado, que, estando o Estado em crise fiscal, necessita principalmente do investimento privado nacional e estrangeiro para expandir-se e gerar empregos”.

Essa sensação de mal-estar que Lula deixou escapar, afirma ainda FHC, decorre da falta de um “horizonte de crescimento que deriva não de vulnerabilidades intrínsecas, mas dos erros de concepção e gestão do próprio governo, que limitam a confiança no País”. Em linguagem elevada, ele observa ainda que o Ministério da Fazenda “parece sitiado em seu bom senso por um conjunto de ministérios que, com as exceções de praxe, se compraz em nada fazer ou em sonhar fazer o impossível: uma volta aos anos 70”.

As críticas de FHC com certeza haverão de render muitos discursos e escritos. Já na segunda-feira, o presidente do PT, José Genoino, vinha a público para desqualificar o conteúdo do artigo, atribuindo a iniciativa a alguém que, deixando de lado a postura de ex-presidente, estaria assumindo o papel de líder da oposição ao governo. Partiu para o ataque, mas esqueceu de rebater importantes itens, entre eles esse da “falta de um projeto de governo consistente com a realidade”, enquanto os líderes políticos ziguezagueiam entre a paralisação administrativa e as tentativas voluntaristas de volta a um passado impossível de ser retomado”. Nada de conspiração.

A verdade são outros quinhentos. Aqui na planície, como bem observa FHC, não se percebe nenhum movimento conspiratório, detectado nas alturas rarefeitas do Planalto pelo ministro da Justiça. Para dizer o menos, temos todos sensação parecida àquela descrita por FHC.