O fantasma da inflação continua rondando o Brasil. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha descartado as primeiras cogitações de aumento dos juros, para conter a inflação, inclusive dando um ?cala-a-boca? no ministro da Fazenda, Guido Mantega, que havia cogitado de sustar a onda descendente das taxas e até elevá-las, prevenindo assim um surto inflacionário, a verdade é que o perigo não foi afastado. E não foi porque o fenômeno não depende só da vontade do governo ou de suas providências, mas tem componentes diversos, a começar pela lei da oferta e da procura, a conjuntura internacional que no momento não é das mais favoráveis e variáveis outras que podem surgir contrariando a vontade da nação.

Um dos partidos de esquerda que apóiam o governo, em sua propaganda eleitoral, vem condenando o que chama de tentativas de elevação de juros como manifestação de vontade dos especuladores financeiros, principalmente dos bancos. Sofisma, pois como outros produtos ou até mais sensíveis do que eles, o dinheiro tem preços flutuantes de acordo com a lei da oferta e da procura e pressões de preços por excesso de oferta ou escassez de demanda influem em suas cotações. Mais do que influem, são decisivas.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou no mês passado a maior taxa para um mês de março desde 2005, superando as previsões dos analistas. No mês anterior, foi menos comportada, mas de qualquer forma a repetição de índices elevados parece indicar uma tendência. Uma indesejável tendência.

O IPCA subiu 0,48% em março, ante 0,49% em fevereiro. Foi a maior taxa desde março de 2005. A inflação esperada, segundo analistas, era de cerca de 0,35%. As previsões mais otimistas falavam em 0,28% e as mais pessimistas, 0,46%. O setor de alimentos é que teve o pior comportamento. Eles avançaram 0,89%, acima da alta de 0,60% de fevereiro. ?Influenciado por aumentos nos preços da farinha de trigo, o principal destaque do grupo foi o pão francês, que ficou 4,24% mais caro?, disse em nota o IBGE.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), no momento em que o Brasil cogita, se confessar, aumentar as taxas de juros como precaução contra uma alta incontrolável da inflação, adverte que uma taxa alta atrai capital especulativo e valoriza o real, prejudicando exportações e elevando a vulnerabilidade do País.

O Brasil, que já oferece altas taxas de juros ao mercado internacional, se for forçado a aumentá-las ainda mais, passará a ser um céu para os especuladores que dirigirão para o nosso País os recursos especulativos que migram pelo mundo.

O que estes últimos números e dados revelam é que aquele tipo de conversa de Lula na base de ?Bush, meu filho. Resolva os seus problemas que nós resolveremos os nossos? é, na verdade, piada. Licença oratória para as massas.

O mercado financeiro é globalizado e, quando há elevação exagerada das taxas de juros (e as nossas já são das mais altas do mundo), a especulação financeira é inevitável. Inevitável, também, em determinadas circunstâncias que começam a se delinear, o uso de elevações dos juros para prevenir surtos inflacionários. E, num país como o nosso que tem em sua história ainda recente, uma superinflação das maiores já vistas pelo mundo, todas as cautelas são bem-vindas e não há medidas efetivamente descartáveis quando de defesa da relativa solidez do nosso dinheiro, o real.