O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje que o atual governo, às vezes, dá a impressão de, assim como existiu no passado no Brasil no primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), querer fazer algum tipo de “dirigismo” da imprensa.

Segundo o ex-presidente, atitudes desse tipo -recentemente, o governo mandou ao Congresso proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo para regular o exercício da profissão de jornalista, o que gerou acusações de tentar censurar empresas jornalísticas -, são, porém, absolutamente inúteis, devido ao sistema democrático vigente no País.

“A sociedade não deixa”, afirmou ele, durante palestra sobre o presidente Getúlio Vargas promovida pelo jornal “O Globo” em sua sede.

Durante sua apresentação, na qual analisou a passagem de Vargas pela Presidência da República e pela política brasileira, Fernando Henrique também lembrou a ação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão estatal encarregado de censurar os jornais e cuidar da imagem do presidente durante o Estado Novo (1937-45). Não houve, porém, comparação direta nesse ponto com o governo atual, segundo pessoas que assistiram à exposição do presidente, à qual repórteres de órgãos que não pertencem às Organizações Globo não tiveram acesso. Cerca de 500 convidados assistiram à exposição, na sede do jornal.

Fernando Henrique afirmou ainda que foi chamado de neoliberal por ter, na Presidência, seguido preceitos resumidos no chamado Consenso de Washington, mas que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eleito para mudar tudo, acabou repetindo tudo o que fora feito, não porque quisesse, mas porque não havia alternativa.

O ex-presidente declarou que os preceitos do Consenso apenas listam “platitudes”, como, por exemplo, que não pode haver déficit. Mesmo assim, foi criticado por cumprir suas assertivas. “Segui e fui chamado de neoliberal”, afirmou.

O ex-presidente também defendeu as agências reguladoras de serviços públicos, criação de seu governo (1995-2002) cujas atribuições estão sendo rediscutidas pela atual administração, que quer dar mais poder para os atuais ministros em relação a esses órgãos. Para Fernando Henrique, as agências são o corolário necessário do processo de privatização, que, em sua opinião, se tornou fundamental pela incapacidade do Estado de investir e fazer frente às demandas sociais