O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou nesta sexta-feira (11),
em Madri, Espanha que o governo Luiz Inácio Lula da Silva não pode "exagerar na
dose" da manutenção da política econômica, praticada, segundo ele, nos moldes
semelhantes aos dos oito anos do governo tucano. Em entrevista concedida à rádio
Eldorado, FHC destacou que é preciso saber qual o momento necessário para
aumentar a taxa de juros, mas também reconhecer quando deve ser promovida a
redução problema que ele próprio teria enfrentado durante o seu mandato.
"Precisa tomar cuidado para não errar na dose. Política econômica não são
receitas. A responsabilidade diante do País obriga que haja um certo controle do
gasto, que haja um superávit, porque nós temos dívida. Que, eventualmente, por
causa da inflação, se eleve a taxa de juros. Mas eu repito: eventualmente,
porque a gente perde a oportunidade de baixá-la. Eu sei porque isso também
aconteceu comigo", opinou FHC.

O ex-presidente elogiou o atual momento de
convergência sobre questões básicas pelo qual estaria passando o Brasil. "No
geral, a equipe econômica tem seguido as linhas do que fazíamos quando estávamos
na Presidência", acrescentou.

Retratação de Lula – Fernando Henrique
manifestou que não há a necessidade de Lula se retratar de maneira oficial em
relação ao discurso feito no dia 24, em Jaguaré, no Estado do Espírito Santo, em
que o presidente disse que evitou divulgar supostos casos de corrupção do
governo FHC para não "achincalhar" a gestão anterior.

O ex-governante
destacou que apenas gostaria que Lula reconhecesse que teria cometido um
equívoco. "Dado o tipo de relacionamento que o presidente Lula e eu sempre
tivemos, espero que ele entenda que é muito mais fácil dar a entender que
exagerou, que foi para um caminho que não era o melhor para o País. Isso
ajudaria que o País visse que tem um presidente que, além de ter a legitimidade
do voto, tem a capacidade de dizer: Bom, eu me equivoquei", comentou FHC. "De
minha parte, eu disse que, se ele tiver algum caso real de corrupção, tem
obrigação de dizer qual é. Eu preciso saber e sou interessado em esclarecer",
adicionou.

PSDB na oposição – O ex-presidente da República reconheceu que
o PSDB teve dificuldades de se posicionar na oposição do governo Luiz Inácio
Lula da Silva, mas justificou que isso ocorreu em virtude do tempo em que o
partido permaneceu no poder. "O PSDB foi governo de tantos anos e realmente teve
algumas dificuldades de se posicionar, mas, agora, está muito bem posicionado.
Não é uma posição destrutiva, não é uma oposição para derrubar o que é bom para
o Brasil, mas é uma posição para cobrar as coisas com muita clareza e com muita
ênfase", afirmou. "O PSDB acertou agora o ponto."

Fernando Henrique
Cardoso está na capital espanhola, onde participou da Cúpula Internacional sobre
Democracia, Terrorismo e Segurança, patrocinada pelo Clube de Madri, que é
presidido por ele e reúne vários chefes de Estado e representantes de mais de 50
países. Eles pedem à Organização das Nações Unidas (ONU) uma definição
internacional de terrorismo.

Nesta sexta-feira, os espanhóis lembram o
primeiro aniversário dos atentados de 11 de março de 2004, que deixaram 191
mortos em Madri.