O presidente cubano Fidel Castro está preocupado com os reflexos da crise política brasileira na "continuidade" do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o embaixador do Brasil em Cuba, Tilden Santiago.

As denúncias de corrupção que envolvem o PT e o governo federal, conforme o embaixador, repercutem "muito" na ilha.

"Ele (Fidel) tem uma estima muito grande pelo presidente Lula, sobretudo porque ele vê o Lula como um quadro político da América Latina que mais contribui para a integração do continente. Ele já me disse isso várias vezes. Então, da parte do Fidel, é muito uma preocupação com a importância da continuidade do governo Lula", afirmou. "Depois da crise eu ouvi isso dele e de outras lideranças cubanas".

Tilden, porém, observou que o presidente cubano já havia manifestado preocupação com a reeleição de Lula antes mesmo de vir à tona o escândalo do mensalão.

"Já antes da crise eu tive a oportunidade de jantar três vezes com o presidente Fidel Castro, quando houve a visita de ministros brasileiros a Cuba. Ele já enfocava muito a questão das eleições. Ele me pegava pelo braço e dizia: ‘Embaixador, o Lula se reelege? Tem que reeleger o Lula’", contou Tilden, após se reunir com o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), no início da noite de ontem (16).

Entre a população cubana, segundo Tilden, a curiosidade maior é sobre o futuro do PT. "Eles colocam uma interrogação. Como vai ser?", relatou. "A população cubana tem informação, ela acompanha a esquerda no mundo inteiro."

Autocrítica

Integrante da tendência Movimento PT, Tilden defendeu que a direção provisória da legenda adote uma "posição firme" e puna os responsáveis pela situação na qual se encontra o partido. O embaixador salienta que é necessário que os petistas façam também uma "autocrítica interna".

Segundo ele, o "excesso de centralismo de poder" exercido pelo Campo Majoritário é anterior ao governo Lula. "A presença do governo só fez extrapolar essa tendência de excessivo poder concentrado, (que) já existia antes", disse.

"Será que nós não fomos omissos em permitir que o Campo Majoritário exercesse o papel que exerceu, de controle de tudo, à revelia da base do partido e à revelia das tendências minoritárias, inclusive a minha?", questionou.

Tilden, no entanto, salientou que isso não significa que todas as lideranças do Campo Majoritário tenham adotado "caminhos amorais". "Não vejo o PT e sua cúpula totalmente contaminada com essa situação."

Na opinião do embaixador, o governo Lula vive um "furacão político", mas é prematuro falar em impossibilidade de o presidente disputar um novo mandato em 2006. "Não se pode afirmar que Lula não tem condição de se reeleger. É prematuro isso", disse Tilden, que retornou, nesta quarta-feira, para Cuba.