Vai começar o programa primeiro, mais importante e ruidosamente apregoado do governo Lula: o Fome Zero. Inicia-se depois de muitos percalços e teme-se que novos venha a enfrentar, a começar pelas divergências, dentro do próprio governo, sobre como implementá-lo. Os encarregados diretos do plano e todo o governo, que se compromete a dele participar, explicitam ou inventam formas mais ou menos convincentes de somar alguma coisa para acabar com a fome de milhões de brasileiros. No exterior, países anunciam que ajudarão, mas aí aparece uma diferença substancial de enfoque sobre o combate aos problemas sociais. No governo Lula, mesmo em se tratando do combate de um mal insuportável e que deve ser abominado em qualquer sociedade, o Fome Zero tem caráter assistencialista. Seria um pecado perdoável, mas quando Estados Unidos e Alemanha dizem, por seus líderes, que vão ajudar, vêem-se as diferenças de mentalidade (e interesses).

John Taylor, subsecretário americano do Tesouro para Assuntos Internacionais, diz que seu país vai ajudar o Brasil no combate à fome por meio do BID, Banco Mundial e até mesmo com práticas comerciais. Isso significa afastar o assistencialismo e priorizar o interesse. Interesse mútuo, esperamos, já que em geral dão ênfase ao interesse deles. O presidente da Alemanha, Johannes Rau, com quem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou em sua viagem à Europa para participar do encontro de Davos, também disse em Berlim ao chefe da nação brasileira que apóia o programa. Quanto e como? Não explicou, o que aliás é dispensável, pois no regime alemão o presidente é quase uma figura decorativa. Algo concreto teria de ser ajustado com o primeiro-ministro Schroeder. Isso pode acontecer, mas parece certo, conhecendo-se a mentalidade das autoridades alemãs, como de resto de todos os países desenvolvidos, que assistencialismo puro e simples eles não farão.

As primeiras cidades brasileiras a serem beneficiadas com o programa Fome Zero serão Guaribas e Acauã, no sofrido sertão do Piauí. O governo Lula, até mesmo pela exiguidade de tempo, além da escassez de recursos e dificuldades em ajustar um adequado método, irá nessas pequenas e miseráveis localidades nordestinas fazer um teste. E dar solenidade ao lançamento do programa. Aí, logo se evidenciou um gravíssimo problema. Como cadastrar os carentes merecedores da ajuda do Fome Zero? Diante das dificuldades, há quem já esteja aconselhando o uso de cadastros já existentes, que embasaram programas assistenciais do governo Fernando Henrique Cardoso. Não fazê-lo obrigará a montar uma estatística da miséria que abrange milhares de famílias até mesmo na região de Guaribas e Acauã. E que existem em Brasília, Rio, São Paulo, Curitiba. Enfim, em todo o Brasil.

A escolha das duas pequenas cidades piauienses como palco da estréia do programa já ocasionou um sério problema. Famílias carentes de toda a região estão se mudando para Guaribas e Acauã, na esperança de serem cadastradas e receberem a ajuda do Fome Zero, numa das formas que serão testadas. Essa migração mostra a urgência de o programa ser implantado rapidamente em todo o País. Urgência que exige organização. E muitos recursos. Organização que o governo ainda não teve tempo de montar e recursos que ainda não conseguiu arrecadar. Não obstante, todos torcemos pelo sucesso do programa, mesmo discordando de seus métodos e filosofia.