Tido como o grande monumento da administração Jaime Lerner, erguido em tempo recorde (menos de um ano) e milagrosamente inaugurado a tempo de levar as assinaturas do ex-governador e do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o Museu Oscar Niemeyer (ex-NovoMuseu) vai finalmente abrir as portas como merece – com uma grande exposição internacional, de inestimável valor histórico e artístico, como Os Guerreiros de Xi?an e Tesouros da Cidade Proibida, que deve aportar no espaço em julho.

Mas isso depois de dois meses fechado para obras de acabamento e problemas de infra-estrutura, que vão consumir R$ 4,3 milhões – além dos US$ 15 milhões (em recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento) gastos para a reforma do Edifício Castelo Branco e construção do anexo em forma de olho.

“O prédio foi inaugurado apenas pró-forma, pois recebemos a estrutura com diversos problemas”, conta a diretora da Coordenação Estadual de Museus (Cosem), Clarete Maganhotto. “Havia vazamentos em diversos lugares, nos banheiros, encanamentos e até no espelho d?água, sem falar nos alagamentos dos jardins internos, que chegaram a apodrecer as plantas, o que fez com que toneladas de terra tivessem que ser retiradas de carrinho-de-mão.” Para ela, o governo anterior fez a inauguração às pressas, para ficar com os louros, enquanto “a bomba caía no colo do novo governo”.

Esse episódio é um retrato da mesquinharia e da falta de bom senso que normalmente marcam as transições de governo entre grupos políticos adversários. O grupo que encerra o mandato se esfalfa para mostrar alguma realização visível, nem que para isso tenha que apelar para inaugurações de “faz-de-conta”, onde apenas a imagem externa e a plaquinha na fachada contam.

Jaime Lerner permaneceu durante oito anos no Palácio Iguaçu; pensou no Edifício Castelo Branco como museu só durante a disputa entre várias capitais brasileiras para abrigar a franquia do Guggenheim, em 2001. E se esbaforiu para entregar a obra pronta ainda como governador do Estado. Se o projeto tivesse sido planejado, executado com calma e profissionalismo, o museu (com o nome que se quisesse dar) estaria funcionando desde o início do ano – e não haveria a necessidade de gastar mais R$ 4 milhões nas reformas de um prédio recém-construído.

Como o valor para a vinda da megaexposição chinesa a Curitiba esteja sendo especulado em torno de R$ 1 milhão, todos os outros investimentos do governo na área cultural devem permanecer congelados – e isso depois de três meses de moratória.

Para o artista plástico e fundador do Museu de Arte Contemporânea, Fernando Velloso, o prédio dos museus é o que menos importa: “É muito caipira e provinciana essa euforia em torno das instalações, essa mania de comparar com o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) ou com o Guggenheim de Bilbao. Apenas uma obra do acervo desses museus vale muito mais que toda essa construção do Niemeyer”, dispara. “Muito bom que se construam bons prédios, mas primeiro e acima de tudo deve-se levar a sério o que vai estar dentro. É preciso voltar o foco para o conteúdo, incrementar os setores de pesquisa, a parte de documentação, educativa e cultural. Museus devem ser voltados para a cultura, não para o entretenimento. Não são filiais da Disney”. E ponto final.

Luigi Poniwass

(almanaque@parana-online.com.br) é editor do Almanaque em O Estado.