A diretoria do curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV) demitiu nesta quinta-feira o ex-secretário estadual de Transportes e ex-diretor da escola, Michael Zeitlin. Professor há mais de 30 anos na instituição, ele foi o 17º a ser dispensado neste mês. Segundo comunicado da direção, as razões foram "meramente administrativas".

Hoje, no fim do dia, um protesto de alunos contra a decisão parou a Avenida Nove de Julho, onde fica a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV (Eaesp). Eles já haviam divulgado um manifesto chamado "Democracia em risco", em que diziam estar preocupados com "motivações políticas para as demissões".

A assessoria da Eaesp informou que não há crise financeira na instituição, como é o caso da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), que demitiu 30% de seus funcionários. As dispensas na FGV teriam sido feitas para uma adequação do quadro de 300 professores.

Nesta semana, 40 professores da escola entregaram à direção um abaixo-assinado pedindo uma reunião para discutir as "conseqüências acadêmicas e de qualidade de ensino em função das demissões".

"Não sabemos o critério para as demissões. Isso pode gerar um clima de perseguição e ferir a liberdade acadêmica e de expressão na instituição, influindo na qualidade do ensino", diz o professor Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo. Segundo ele, as demissões deveriam ter sido aprovadas pela Congregação da Eaesp, que é composta por professores e representantes de funcionários e de alunos.

Napolitano acredita também que a decisão põe em risco a gestão democrática que existe na escola e é um indício de que a fundação mantenedora, com sede no Rio, pretende controlar a Eaesp. A escola de Administração é a única entre as mantidas pela FGV (as outras são de Economia e Direito) que tem uma Congregação. Para a direção, as demissões não deveriam ter sido submetidas à Congregação, já que sua atribuição é a de estabelecer "diretrizes e normas relativas às atividades de ensino e pesquisa".

Segundo um professor da FGV, que já trabalhou na direção da Eaesp e não autorizou a publicação de seu nome, os colegas foram demitidos porque não eram suficientemente produtivos. "São pessoas que não entendem que a educação mudou. Os critérios de eficiência de uma instituição de ensino são qualidade das aulas e pesquisa. Eu também os demitiria", diz. Apesar disso, ele discorda da forma como as dispensas foram feitas, "sem transparência". Segundo ele, alguns dos demitidos tinham também divergências com a atual direção, comandada por Fernando Meirelles.

"Querem tirar as pessoas que fazem oposição e discordam, por exemplo, das franquias que a FGV tem aberto por aí, licenciando cursos de MBA ou graduação", diz Zeitlin, sobre pequenas instituições que compram pacotes de cursos da FGV. Ele contou que o diretor não explicou o motivo de sua demissão e disse apenas que "não tinha mais jeito". Zeitlin, que já planejava sua aposentadoria, disse ainda que havia recebido uma proposta para se desligar da FGV em seis meses. "Eu ganharia uma festa. Não aceitei e considerei uma ofensa, já os outros colegas foram para a rua da amargura."