Na quarta-feira passada, hora do almoço, um caminhão carregado de galinhas atracou no gramado da Esplanada dos Ministérios. Não se sabe bem como foram organizados, mas imediatamente engravatados e transeuntes, garçons, servidores de limpeza e outros passaram a receber galinhas. Vivas. O plano era dar uma galinha a cada vivente interessado, mas conta a crônica que teve quem saísse com mais. Um deles saiu com quinze penosas. Não se sabe se conduziram as galinhas a algum eventual galinheiro próximo ou mercado, ou as levaram para seus apartamentos. Galinha sem galo não bota ovo. E com certeza nem todos sabiam como fazer brodo com o presente recebido.

Eram galinhas especiais – garantiram os organizadores do inusitado fato – fruto de longos anos de pesquisas. Entre outras vantagens sobre as galináceas normais, essas distribuídas em Brasília contabilizam a produção de 330 ovos anuais.

O gesto encerrou um protesto organizado pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Pesquisa Agropecuária em favor dos funcionários da Embrapa, em todo o País, descontentes com seus salários. Querem 20% de reajuste e até aqui obtiveram apenas 2%. Por isso pararam de trabalhar um dia e saíram às ruas distribuindo galinhas. Juntaram no caldo protestatório alguma coisa mais nobre: a parcimoniosa liberação de recursos para pesquisas. Dizem eles que o governo até aqui liberou apenas 15% do que está orçado. Assim mesmo dirigiu esse dinheiro para a biotecnologia, com sacrifício de outras áreas, como a de irrigação…

Cada um reclama como pode. E – já dissemos aqui – de acordo com a dor do próprio calo. Entretanto, há certas coisas que precisam ser consideradas em qualquer protesto. O direito dos outros, por exemplo. As galinhas da Embrapa não pertencem aos funcionários grevistas e, sim, ao Estado, já que se trata de uma empresa por ele mantida. Não há notícia de que as penosas tenham sido adquiridas pelo sindicato. Donde é fácil deduzir que os funcionários protestantes foram ironicamente transformados em ladrões de galinha. O Estado, entretanto, perdeu a oportunidade de lavrar o flagrante e conduzir – como na planície acontece com freqüência – os ladrões de galinha à cadeia.

Ironias à parte, o fato alimenta a prática jurisprudencial de que é lícito ao servidor público valer-se de qualquer meio para engrossar seu protesto por melhor remuneração. O que é errado. Há que se respeitar, antes de qualquer coisa, o patrimônio público. Mesmo que seja uma simples galinha.