Na década de oitenta, os carros a álcool respondiam por mais de noventa por cento das vendas do setor. Petróleo caro e incerto, incentivos do governo e uma série de outros fatores fizeram o brasileiro aderir ao combustível renovável como uma alternativa possível e viável. No ano 2000, esse percentual estava abaixo de um por cento (hoje, está perto dos três por cento). Embora se garantisse que o álcool automotivo tinha vindo para ficar – e até por isso outras nações nos invejavam – toda conversa foi atirada pela janela. Irresponsavelmente. Inclusive a que perseguia no projeto Proálcool o milagre da geração de mais empregos.

Discute-se agora em Brasília, nos canaviais e nas montadoras a proposta de reativar o programa. Com tantas incertezas no Oriente Médio, a cana-de-açúcar volta a ser namorada com ardor nas onduladas planícies em que viceja Brasil afora. O mercado açucareiro não anda lá essas coisas, enquanto o setor alcooleiro trabalha com capacidade ociosa. Temos capacidade instalada para produzir dezesseis bilhões de litros por ano, mas só produzimos pouco mais que onze bilhões. Um bilhão e meio de litros são misturados à gasolina, em proporções cada vez mais altas.

A tese da reativação do programa ganhou corpo na semana que passou. Mas o debate empaca num ponto crucial: é preciso quebrar a desconfiança do consumidor, aliada àquela das montadoras. E não se trata de desconfiança na funcionalidade do sistema, como da primeira vez. O problema é falta de confiança na continuidade do programa. Afinal, no Brasil o que se promete agora pode ser esquecido amanhã. E muitos ainda se recordam dos tanques secos e bombas vazias quando estavam na fila para abastecer em meio a longas viagens.

©O governo e o setor estão comprometidos em garantir para o consumidor que não vai faltar álcool”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral. Conversa necessária, sim, mas que ainda não emplaca diante dos desafios a vencer. Um deles é o equilíbrio entre a produção de álcool e aquela de açúcar para atendimento do mercado interno; o outro estaria na garantia da competitividade do preço do álcool com relação ao preço da gasolina. O preço do álcool necessariamente terá que ser menor que o do combustível derivado do petróleo. Na outra ponta, as montadoras também raciocinam em vantagens e garantem que o consumidor sustentará o ressurgimento do carro a álcool se este oferecer vantagens.

Apesar das naturais desconfianças, decorrentes do calote sofrido pelos que acreditaram no programa em passado recente, o assunto merece ser retomado. Pelo lado dos produtores é interessante, assim como pelo lado do comércio também, incluindo aquele internacional, que nos obriga a buscar o superávit na balança de pagamentos. Idem pelo lado ecológico e, também, pelo lado social, num Brasil que não tem problemas de espaço para produzir. Mas como quase tudo na área agrícola brasileira vai aos trancos e barrancos, há que se pensar numa política de longo alcance, sem paternalismos governamentais, onde as regras do jogo sejam claramente definidas e existam garantias de que serão fielmente cumpridas.