Gato de despensa sempre age como pensa. O dito popular pretende resumir a explicação para o comportamento alheio. Cada um enxerga o mundo através da cor de seus olhos, conceitos, preconcepções e maneiras de encarar a realidade. Graças a isso, os ingênuos não conseguem ver a maldade alheia, mesmo que explícita. Mas os maldosos enxergam maldade em tudo, ladrões estão sempre à espreita de uma oportunidade para roubar e terroristas vivem em função do terror. Os golpistas imaginam golpes em todas as ações de terceiros.

Ao governo do PT, pelo que se percebe, diz respeito a última categoria. Por mais que esteja evidente que seus problemas são gerados dentro de casa, ele imagina que tudo não passa de um terrível equívoco, que é armação das oposições, tentativa de desestabilização e que em tudo existe objetivo eleitoreiro. Como os gatos de despensa, condicionou sua ação ao pensamento central desses longos vinte anos de sua história, consumidos na luta pela escalada do poder. A oposição sistemática – não importando se o objetivo atacado era importante e correto – era apenas uma de suas táticas. A obstrução, idem. A tergiversação, igualmente.

Foi por isso que, no governo, teve que rever conceitos, admitir muita coisa que condenava, praticar aquilo que criticava com todas as suas forças, mesmo que isso assumisse o sabor ou a cor do estelionato eleitoral. O estilingue de ontem é a vidraça de hoje e, embora os que hoje manuseiam a funda o façam de outro jeito, remanesce-lhes aquele conceito aprendido nos tempos de arruaça, do quanto pior melhor, das grandes jogadas para a torcida, da caça incessante aos votos, da terra arrasada de tudo quanto aí está.

Desde o estouro do caso Waldomiro, vivemos dias terríveis sempre à espera de algo novo e bombástico na esfera das maquinações, dentro e fora do governo. Quando parecia caminhar para o encerramento – como desde o começo quis o Planalto – da crise causada pela revelação das imagens de uma conversa do ex-assessor parlamentar e braço-direito do ministro-chefe da Casa Civil com um dos principais comandantes da jogatina nacional, aparecem agora outras gravações conspiradas em plena madrugada nas entranhas de órgãos públicos, envolvendo nomes honrados da vida nacional, que chegam ao do presidente da República. Mal investigado como até aqui foi, o Waldogate está servindo de motivo para apurações paralelas, chantagens e, valha-nos Deus, não se sabe o que mais.

E vêm os representantes do governo e suas lideranças no Congresso para dizer que é tudo armação, que tudo não passa de tentativa grosseira de desestabilização. Alguns chegam a nomear pessoas (o ex-candidato derrotado José Serra seria uma delas) como responsáveis pela divulgação de fatos criminosos, como se o crime estivesse na divulgação, não no achaque, na propina, na negociata realizada. E o desgaste se amplia com a investigação sobre procuradores e outros funcionários graduados, num debate secundário e diversionista em que se envolvem personalidades como o presidente do egrégio Supremo Tribunal Federal.

A crise em que está metido o governo e seus desdobramentos aponta que o caminho cada vez mais estreito da saída é aquele que o Planalto procurou evitar desde o começo: uma ampla e funda investigação política sobre o caso, uma comissão parlamentar de inquérito. Os fatos já não se restringem, como dizia no início o ministro José Dirceu, a período anterior ao atual governo. Eles se misturam – e os valores envolvidos nos contratos com a Caixa Econômica Federal para a exploração do jogo legal não são pequenos – aos atos do atual governo, às barbas de gente do primeiro escalão cuja “in-com-pe-tên-cia” precisa ser colocada à prova. E não se diga que esta é uma tese conspiratória de gatos de despensa. O governo do PT precisa ser salvo e este é o único caminho saudável que resta.