Este mês fez cem anos que Paul Gauguin morreu, depois de lutar a seu modo contra uma forma de cultura européia e uma visão européia de mundo. Não contra o conhecimento que a Europa produziu, mas os vícios depois que o ímpeto criativo cessou. Gauguin foi um precursor dos hippies e escolheu os confins do Pacífico e da Oceania em busca de uma sociedade que considerava livre das mesquinharias e sordidez de uma Europa milenar, cansada e decadente. De certa forma encontrou o paraíso, mas por pouco tempo. Mesmo as pequenas ilhas da Oceania estavam maculadas já naquele tempo pelos brancos europeus, com seus hábitos, sua arrogância, sem respeito ao que hoje se chama diversidade cultural.

Quando Gauguin morreu, os nativos teriam dito: “Gauguin morreu, estamos perdidos!”. Não que ele fosse um Che Guevara, foi mais um encrenqueiro que enfrentava os colonos europeus por estes desejarem mudar o que encontravam, por acharem que aquilo que viam estava errado, pecaminoso, atrasado. Esta a visão européia do mundo não-europeu e talvez ainda seja. Esta é a visão que os americanos herdaram e que zelam ainda hoje por ela. E esta é uma das sementes do desequilíbrio entre as nações há pelo menos uns 500 anos.

Pode-se argumentar, mas os nativos da Oceania viviam no atraso e os brancos foram levar progresso. Mas também se pode argumentar que aquilo que os brancos chamavam progresso não era progresso para eles, mesmo porque desconheciam o sentido dessa palavra. E eles viviam a sua vida e o progresso não mudou para melhor a vida deles. Entre o dia em que Gauguin morreu, em 8 de maio de 1903, e hoje, aconteceram coisas como a idéia de jerico dos americanos de fazer experiências atômicas na região, transformar ilhas paradisíacas em um recanto de milionários ociosos, que fazem das ilhas um misto de bordel e lixo. O que disseram sobre estar perdidos, estava longe de ser uma metáfora e mais perto de uma profecia.

Gauguin chamava a raça branca de Inimiga dos Deuses. É uma forma poética de dizer as coisas. Mas não é uma maneira mentirosa. É curioso que a geração a que ele pertenceu, entre o impressionismo e o modernismo, e que incluía Cézanne, Van Gogh, Ensor, Munch e talvez Lautrec, com exceção deste último era formada por sujeitos misantropos, melancólicos, talvez cansados de uma Europa velha, buscando cores e luzes, em uma negação da Europa. Gauguin tinha antepassados peruanos e chegou a morar no Peru. Era rebelde desde criança, o que levou um professor a comentar: “Será um gênio ou um idiota”. Foi as duas coisas. O que lembra o comentário de Cézanne sobre uma tela de Van Gogh: “Parece feita por um louco”. Está certo. Mas também é gênio.

Quando Gauguin cresceu, dizia que descendia de um vice-rei do Peru e tinha sangue inca. E era verdade. Talvez a ascendência despertasse em Gauguin duas características: o fascínio pelas terras selvagens de seus ancestrais que o levou ao Taiti e uma repulsa à civilização branca dominada pelo dinheiro e que se afundava no imperialismo colonial. Quase no fim da vida, após idas e vindas, decidiu rumar à Oceania, às Ilhas Marquesas, para “acabar meus dias sem preocupações com o dia seguinte e sem a eterna luta contra os imbecis”. A morte de Gauguin, esta sim, foi uma metáfora. Os imbecis o venceram.

Edilson Pereira

(edilsonpereira@pron.com.br) é editor em O Estado.