Brasília – Chegar a um consenso sobre como a água deve ser utilizada para melhorar a vida da população nordestina foi o objetivo da Primeira Oficina de Trabalho sobre Desenvolvimento do Semi-Árido, que terminou ontem (7) em Brasília. Por dois dias, governo e sociedade discutiram o tema. A série de debates faz parte do acordo firmado em outubro pelo presidente Lula com o frade dom Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome contra o projeto de transposição do Rio São Francisco.

Na oficina, a controvérsia sobre o modelo de desenvolvimento a adotar ? grandes plantações e agronegócio ou agricultura familiar ? segue como um dos pontos de controvérsia. A necessidade ou não de transposição apareceu associada a essa questão.

Para a Articulação do Semi-Árido (ASA), organização formada por 700 entidades, a transposição irá privatizar recursos e assim aumentar a desigualdade social. ?É uma obra cara, de manutenção elevada, com privatização do acesso à água que reitera a política histórica de concentrar água nas mãos de poucos?, afirmou um dos coordenadores da ASA, Luciano Silveira.

Para as entidades, levar água a uma comunidade não é sinônimo de desenvolvimento ? pelo contrário, pode gerar miséria. Eles argumentaram que a água atrai muitas pessoas causando, em conseqüência, ?degradação ambiental e superpovoamento do seu entorno com níveis de misérias bastante agudos?.

O coordenador regional do Baixo São Francisco no Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, Luiz Carlos Fontes, citou como exemplo desse modelo a observação da comunidade que vive ao redor da bacia. ?O que o São Francisco promoveu, como grande canal, ao longo do seu trajeto no semi-árido??, questionou. ?Pequenas ilhas de prosperidade cercadas de um mar de miséria. Quem vive a mais de 100 metros do rio não se beneficia da água. É um quadro de miséria e sofrimento igual a todos que vivem no semi-árido.?

Entidades defenderam no encontro um modelo de desenvolvimento que parta da distribuição da terra e da reforma agrária. ?É preciso atacar o problema na origem, rever o padrão de ocupação e distribuir terra para diminuir o processo migratório intenso?, argumentou Luciano Silveira.

Como atacar o problema é um questionamento para o qual a sociedade civil confessa também não ter respostas. ?Não temos um projeto pronto. É um plano em construção?, disse Luiz Carlos Fontes. Ele destacou quatro pontos que precisam constar num projeto de desenvolvimento: ?otimizar a convivência com a seca, valorizar a cultura local, não se basear no uso intensivo da água e ser inclusivo?.

A previsão é que, a partir desse encontro, seja traçada uma agenda para debates descentralizados nas comunidades ao longo do rio.