Armados de foices, facões, enxadas, pedaços de pau, tochas e coquetéis molotov, “trabalhadores rurais” invadiram uma propriedade rural no interior do município de Tracunhaém, a 65 quilômetros de Recife, na manhã de segunda-feira. Sob os olhares indiferentes de vigilantes e policiais militares que estavam ali para guardar o local, a horda tocou fogo em tudo: casas e galpões, 13 máquinas agrícolas e 15 bombas pulverizadoras, entre outras coisas. Tudo foi consumido rapidamente pelas chamas, enquanto alguns mais afoitos estraçalhavam telhados e praticavam outros atos de vandalismo. Um estrago estimado em um milhão de reais.

O criminoso espetáculo pirotécnico – assim como a revoltante omissão do Estado, representado pelos policiais ali presentes – foi transmitido ao vivo e em cores pela televisão. Idem com relação aos estragos na terra, com a substituição de uma recente plantação de cana por uma duvidosa semeadura de milho e feijão. No dia seguinte, mais entreveros, com tiroteio, perseguições e ameaças. “Ou vocês dão uma solução agora ou podem preparar os caixões, porque dessa terra a gente não sai”, repetia uma das líderes do exército de invasores, Luíza Ferreira da Silva, ao superintendente-regional do Incra, João Farias.

O problema envolvendo a Usina Santa Tereza, proprietária de 42 engenhos na área, é antigo e tortuoso. Mas outros detalhes já não importam. Assim como também não importa muito se o fato aconteceu no interior de Pernambuco ou no Rio Grande do Sul. Importa é perceber que os confrontos no campo, assim como aqueles que ocorrem nas cidades, estão passando de todos os limites, sob a falência total de ação do Estado, que tem o dever e a obrigação constitucional de zelar pela segurança pública e das pessoas.

Os vândalos do campo, pertencentes a três facções do genérico Movimento dos Sem-Terra – MST, emitiram nota informando que o local foi escolhido para o “ato de protesto” para “denunciar a ação do latifúndio com a conivência das autoridades”. Os proprietários invadidos, por sua vez, também protestam e a seu favor também alegam a “conivência das autoridades” com os praticantes do vandalismo extremado. Logo, logo, os caixões referidos serão poucos para tantos cadáveres protestantes até as últimas conseqüências.

Quem tem razão, ou não, nesse conflito que serve de exemplo é, para os fins de nosso argumento, problema de somenos importância. Caberá a outro braço do Estado – a Justiça – decidir a quem assiste o direito, dentro do tempo e do rito próprios. O que precisa ficar bem claro é que não pode continuar essa omissão da autoridade constituída em casos como esse, sob pena de tudo ser transformado em caos, onde a lei não existe, a ordem idem, e as pessoas não tenham para onde ir sem correr risco de vida. Assim como já ocorre nas ruas do Rio de Janeiro – apenas para citar o foco principal das atenções da mídia, pois é sabido que a violência organizada pelos interesses no negócio da droga e quejandos está em todas as cidades com maior ou menor intensidade.

Vê-se que o crime até aqui organizado nos centros urbanos por razões e ideologias diversas, está se organizando também no meio rural, sob os olhos e ouvidos dos agentes do Estado que, em gravíssima omissão, nada fazem, como se razões de reforma agrária a tudo pudesse justificar. Em nome da ordem imprescindível, é preciso dar um basta a isso tudo antes que seja tarde demais para intervir.