E lá se vai, outra vez, o nosso incansável governador. Embarca na terça-feira, em nova viagem aos Estados Unidos da América. Será o 48.º deslocamento ao exterior de Jaime Lerner em sete anos de mandato, o segundo só neste corrente maio das mães, das noivas e de Maria.

Assim também é demais, excelência! V. ex.” já está extrapolando. Vai enlouquecer aquele meu jovem leitor, aqui referido semanas atrás (`Eles trabalham, né!?’, 14/05), ex-eleitor de v. ex.”, que anda uma fera com esses périplos internacionais.

Embora avô solidário com a saudade de JL do pequeno e certamente gracioso Ben, começo a ter dificuldades para justificar a angústia do governador pela ausência do neto e a distância que os separa.

Eu até tentei explicar ao público, neste mesmo espaço, o que isso significa. Tenho sentido o drama na própria carne. Só que o meu pequeno e não menos gracioso Eduardo mora ali na “colônia” de Santa Felicidade, fala, chora e ri em português, e o pequerrucho Ben está lá confinado entre os arranha-céus de Manhattan e as constantes ameaças terroristas dos desalmados palestinos, e tendo que enfrentar o às vezes incompreensível idioma de Shakespeare. Além disso, como também já se sabe, os pais dele trabalham e não podem estar vindo seguidamente ao Brasil. Por isso, o nosso criativo Jaime Lerner precisa ficar arquitetando motivos para ganhar os ares. Desta vez, diz que precisa ir a Washington “assinar contratos de empréstimo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e de doação com o Banco Mundial”. E nada melhor para isso do que o feriadão de Corpus Christi – embora o moço da Galiléia não faça propriamente parte da galeria de heróis do homem do Iguaçu. E Washington fica ao lado de Nova York. Espero ter-me feito entender.

Não obstante, é preciso maneirar um pouco, governador. Isso poderá ter efeitos colaterais danosos, sobretudo em um ano eleitoral, quando o pré-candidato preferido de v. ex.” para sucedê-lo parece não ter a mesma habilidade de v. ex.” nessa coisa de levantar vôo e continua pregado no chão.

E não adianta alegar que o ilustre presidente desta pobre República – outro campeão absoluto de milhagem aérea – também tem feito isso. São casos diferentes. A provação dele é outra. E tem sido confirmada a cada nova peregrinação. O Brasil é pequeno demais para ele. E o mundo está lá fora. Lá não existe inflação, desemprego, violência, fome, movimento sem-terra, rodovias esburacadas, privatizações corrompidas, dengue, Lula na cabeça… Essas coisas desagradáveis, enfim. Lá é só gente importante, boas instalações, boa mesa, conversa elevada, muitas mesuras e muita gentileza. Há, por certo, algum aborrecimento, como ter de visitar o papa, aquele velhinho doente do Vaticano, beijar-lhe a mão e, ainda por cima, comungar… Sim, FHC, um ateu sacramentado, foi capaz de receber, em Roma, o sacramento da Eucaristia das mãos do santo padre. Mas o que é isso para quem já foi capaz de ingerir bucho de bode? Não é extraordinário o que a política é capaz de fazer?

Em compensação, FHC amealhou mais alguns títulos de Doutor Honoris Causa – desta vez, parece que foi da Universidade de Salamanca, que já teve os seus dias de glória. E já está cevando um carguinho de dimensões internacionais para quando deixar o trono de Brasília.

– Por tutatis! – como diria um velho amigo meu, intrépido herói de uma pequena aldeia gaulesa, a única que não foi ser conquistada pelo poderoso Império Romano.

Célio Heitor Guimarães

é um brasileiro ainda sem nenhuma milhagem aérea.