Ficam um pouco sem sentido as críticas até aqui repetidas pelos maiorais do governo, incluindo o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo as quais uma “herança maldita” está a impossibilitar realizações maiores e imediatas. Pelo menos depois de se saber que o que aí está poderia ser bem diferente não fosse a sistemática oposição como estratégia de busca do poder por parte do partido que ora nele está. As recentes confissões do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, desautorizam, por exemplo, o que acaba de dizer o vice-presidente José Alencar, ao se referir à “herança perversa de FHC”. Se é perversa, nessa perversidade têm participação os companheiros de governo do vice-presidente, já que as reformas necessárias de há muito foram boicotadas – não porque delas discordavam, mas unicamente como estratégia de assalto ao poder.

Mas o vice de Lula, um respeitado e bem-sucedido empresário, imagina ter luz própria em suas críticas e, até onde se sabe, não participou dos males confessados por João Paulo. E embora confesse sua admiração pelo homem que lhe precede na escala de importância do poder instalado, também não pede licença para dizer o que pensa. E o que pensa nem sempre está em perfeita sintonia com o que pensam os demais “companheiros”, já em revoada aos Estados Unidos, como o ministro Antônio Palocci, da Fazenda, para agradecer os elogios do FMI – Fundo Monetário Internacional ao governo Lula. Quem diria!

Deixemos, pois, falar, o vice José Alencar, sobre alguns dos mandamentos do atual governo. Os altos juros, por exemplo, ainda mais altos agora: nenhuma economia – afirma ele em matéria publicada por um jornal de circulação nacional, domingo último – pode ser submetida a esses juros absurdos que são cobrados do consumidor, do comerciante ou industrial. Uma taxa de 8% ao mês no cheque especial dá 150% ao ano. É um assalto. A expectativa de inflação é de 8,5% este ano. A taxa básica nos EUA é de 1,25% ao ano, na Europa é 3,5%. Nós estamos encabrestados pela dívida brutal que construímos com esses juros. Basta conhecer um pouco de aritmética financeira para saber onde isso vai dar. A taxa de juros tem de ser igual à dos países com os quais vamos competir. Senão, estamos liquidados.

Sobre a Previdência Social, o vice de Lula pensa que a reforma deveria respeitar os direitos adquiridos, mas – ao contrário do que está se cogitando – teria de ser ampla para se chegar a um sistema unificado no Brasil inteiro, tal e qual imaginou um dia FHC, mesmo sob o boicote estratégico do PT. A partir dessa nova Previdência, todos os novos trabalhadores ingressariam nela. E haveria espaço até para aposentadoria integral, que obviamente teria um custo. O sistema vigente continuaria, já que 65% são aposentados com salário mínimo. Mas todos migrariam para o novo sistema ao perceber que a Previdência a que pertencem é uma imprevidência social, porque pode quebrar. O vice adverte: a Previdência atual vai chegar a um ponto em que nela ficarão só os marajás. O camarada ganha R$ 40 mil por direito adquirido. Um dia acaba.

Outras verdades estão sendo ditas pelo vice de Lula. Sobre segurança pública, reforma agrária, flexibilização da velha CLT, reforma tributária e até sobre exportações (FHC gritava “exportar ou morrer!”). A herança pode ser maldita, mas não pertence a um único autor. E é preciso tomar cuidado para que ela não passe de mãos, apesar de todas as advertências. Que também não constituem novidade.