Que aconteceria agora se o governo resolvesse impor a ordem e o respeito à lei, tantas vezes invocada para advertir invasores e contraventores, seja do campo, seja da cidade? Haveria resistência, com certeza uns estranhariam a atitude e, decerto, outros acusariam o governo de, a serviço da burguesia ou do capital internacional, praticar golpe ou traição contra despossuídos e excluídos. Procurariam saber o que levou um governo de esquerda a “endireitar” em tão curto caminho. Havendo a resistência dos recalcitrantes, o governo teria que endurecer. E o jogo-de-braço estaria armado para eclodir, quem sabe, na guerrilha ou na guerra civil.

Não é obra de ficção. Os fatos estão caminhando para essa área da perigosa incerteza a que alude o próprio presidente da República em seus conselhos aos “companheiros” dos movimentos sociais. As pessoas – disse Lula no início da semana – não podem perder o senso da responsabilidade. Se quiserem radicalizar, sabem que isso não ajuda ninguém. “Já fui dirigente sindical, já radicalizei muitas vezes. E toda vez que prevaleceu o bom senso, eu ganhei. Toda vez que prevaleceu o radicalismo, eu perdi”, disse o presidente, aconselhando: “Ajam com a maior responsabilidade”. Mais: “Quem quiser fazer suas manifestações, saiba que este é um país livre. O que as pessoas não podem é perder o senso de responsabilidade”.

Palavras ao vento. Lula, que disse já ter estado “do lado de lá” e, portanto, saber “como se dá uma assembléia”, está chamando à responsabilidade quem não pretende exatamente agir com responsabilidade. O líder máximo desse “abril vermelho”, João Pedro Stédile, anunciou a “infernização” geral e, chamado às falas no Congresso Nacional, repetiu com outras palavras que sua disposição era, de fato, criar constrangimento, problemas e complicações. Com o recrudescimento das invasões de norte a sul, incluindo essas da cidade, está cumprindo sua promessa. Quem não está cumprindo sua missão é o “companheiro” presidente, eleito para governar o Brasil de todos os brasileiros, tendo jurado cumprir e fazer cumprir a Constituição.

O país livre de Lula não é exatamente este que os brasileiros sonham ter. Aqui os que precisam da Previdência Social são reféns de sucessivas greves de funcionários pagos com os impostos dos contribuintes. Os que transportam alimentos e riquezas acabam prisioneiros de fiscais reivindicantes na fronteira ou nos aeroportos, sempre sob a boa-vontade do Estado. Aqui os proprietários de terras produtivas, que geram a principal riqueza do País, são prisioneiros de hordas invasoras dispostas a “pressionar” o governo pela reforma agrária de todas as formas e maneiras, incluindo o vandalismo e a destruição. Contra eles nada faz um governo que se limita a teorizar sobre a responsabilidade de cada um, e perorando a respeito da radicalização, isto é, incentivando tudo o que não for radical. Mas o que é radical?

A ordem democrática imaginada pela maioria dos brasileiros não consegue entender exatamente o que quer dizer o conselheiro-presidente quando afirma que “ninguém precisa ficar preocupado com greve, com passeata ou com manifestação”. Nem quando assegura que “isso é exercício da democracia, levada à sua plenitude”, e que “isso é bom para todos nós”. O que é bom: as “passeatas” (sim, Sua Excelência chama invasão de passeata) dos sem-terra? Ou a “passeata” das gangues dos morros e favelas sobre o resto da sociedade subjugada ao terror, já com poder maior que o próprio governo?

A fala do presidente Lula está mais para rainha da Inglaterra que para presidente da República – um cargo que lhe dá poderes, mas cobra decisão. Quando o conselho não resolve, como é o caso, há que se impor a ordem com a responsabilidade de quem sabe que amanhã será sempre mais difícil fazer quem não tem limites devotar respeito aos direitos e deveres de todos. Lula, ao falar sobre a responsabilidade dos governados, está esquecendo aquela dos governantes.