"Lula faz sucesso na economia e papelão no social", publicou o jornal espanhol El Pais, logo após a visita ao Brasil do primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero. A Espanha é hoje o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, logo depois dos Estados Unidos. Os investimentos espanhóis aqui somam US$ 26 bilhões.

Na oportunidade, Lula fez esforços para projetar a melhor imagem do nosso País e convidou "os homens de negócios de ambos os países a apostarem no futuro, investindo em projetos de infra-estrutura física que integrarão as vastas especialidades do continente sul-americano". A crítica do El Pais veio em péssima hora. A imagem do nosso País no exterior é essencial para que se instalem os investimentos disponíveis que em outros países procuram lugar para aplicações. O jornal espanhol reconhece que o governo Lula vai bem na economia e, aí, quer se referir exatamente aos rumos que aqui os socialistas e toda a esquerda, inclusive uma parcela ponderável do próprio PT, condenam. É a política ortodoxa de cumprimento de acordos com o FMI, formação de superávites cada vez maiores e pagamento dos credores externos, mesmo que em prejuízo dos investimentos internos.

"Nunca, desde a primeira metade do século passado, os bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil como no governo do ex-dirigente sindical que comandou greves históricas entre os anos 70s e 80s", disse El País, para acrescentar: "A isso somam-se outros contrapontos: críticas contundentes de alguns movimentos sociais historicamente aliados ao Partido dos Trabalhadores (PT), como o dos sem terra (MST) e a Comissão Pastoral da Terra. Dentro do PT, as correntes discrepantes da política de Lula ganham força e são controladas com mão dura pela cúpula do próprio partido do governante, instalada em Brasília".

Dá exemplos do que considera papelões: "Dois exemplos ilustram uma mistura de política de marketing com a incompetência administrativa. Primeiro exemplo: para divulgar um programa de apoio à agricultura familiar, uma campanha pela televisão mostrou agricultores de uma cidade próxima a São Paulo entre pujantes hortas de alfaces, tomates e abóboras. Depois de citar números, o locutor anunciava solene: "Isto é um fato. Esta é a verdade".

E acrescenta que não é nem uma coisa nem outra. Os números correspondiam aos recursos previstos pelo orçamento elaborado pelo governo anterior e o anúncio exibia cenas filmadas em uma propriedade particular, cujo dono se apressou a denunciar a farsa. O jornal refere-se ainda à doação de Gisele Bündchen ao Fome Zero, que ficou sem aplicação porque o governo não sabia que existia uma conta bancária para tal fim…

Precisamos de investimentos externos diretos e a Espanha é uma interessante parceira. Mas é preciso projetar uma imagem de maior credibilidade, pois o que El Pais disse do nosso governo, por desagradável que seja, não está longe da verdade. Para o empresariado, o aval de Zapatero acaba perdendo o valor quando tais papelões são revelados.