Há poucos dias, entidade que congrega militares reformados lançou manifesto exigindo que as investigações das CPIs e outras que são feitas por diversos órgãos, revelando irregularidades, impropriedades e até crimes no processo político-eleitoral brasileiro, sejam levadas até o fim. A Ordem dos Advogados do Brasil e outras entidades da sociedade civil também exigiram rigor nas apurações. Uma delas anuncia para janeiro um pedido de ?impeachment? do presidente. O próprio Lula disse que as investigações devem ir até o fim e os responsáveis punidos, sejam quem forem, aliados ou adversários.

Nesse meio-tempo, forças situacionistas trabalharam em contrário ao discurso presidencial, obstaculizando as investigações. A negativa da bancada do governo em assinar o pedido de prorrogação da CPMI do Mensalão resultou no seu fim melancólico. O relator Ibrahim Abi-Ackel, mesmo sabendo que tudo fora por água abaixo, pois esgotara-se o prazo para conclusões, leu no dia derradeiro, quando a CPMI já tinha morrido, um relatório em que não reconhece o mensalão, assim entendida a prática da entrega mensal de dinheiro, em valores mais ou menos iguais, a deputados para que aderissem ao governo. Mas mostrou que a periodicidade, mesmo que não fosse mensal, mas semanal, quinzenal, bimestral ou mesmo semestral ou anual, não descaracteriza o uso de dinheiro para comprar apoios políticos e financiar campanhas eleitorais. Isso é ilegal, imoral e vicia inapelavelmente as eleições e a democracia.

A CPMI do Mensalão virou um ?saladão? enorme e sem tempero, quando o que se temia era uma imensa pizza. Os trabalhos inacabados, entretanto, foram suficientes para demonstrar que não são poucos os desonestos que saem impunes.

Ao mesmo tempo em que se enterrava essa importante CPMI, ministros de grande importância, como a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, se desentenderam, porque a ministra, expressão das esquerdas remanescentes do PT, discorda da política econômica de Palocci. E Lula apóia esta política, embora haja quem diga que esse apoio não é tão firme quando se trata de prestigiamento do próprio ministro.

O presidente considerou as discussões entre ministros e outros membros do governo ?saudáveis?, o que deixa a opinião pública sem saber o que pensar. É saudável que membros do governo, no exame de soluções para os graves problemas do País, debatam e discordem, até que se chegue a um denominador comum. Mas dentro do governo. Já a discussão pública demonstra falta de unidade, de convicção, de rumos. E tal fato é gravíssimo, em se tratando de política econômica.

A conclusão é de que o enterro prematuro da CPMI foi um exemplo eloqüente de que entre nós continuará vigorando a impunidade. E as ?saudáveis? discussões entre ministros, que eles exercitam um jogo de cabo-de-guerra, e o povo não sabe para quem torcer nem quem será o grupo vitorioso. Quanto mais o que farão deste País.