Há algo no ar e não é avião. É insatisfação entre os militares, apontada em nota divulgada pelo comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos da Silva. “Insatisfação militar”, diz um prestigioso jornal noticiando o fato. Força de expressão, pois se fosse isso, seria assustador. É insatisfação entre os militares e não “insatisfação militar”, que seria descontentamento das corporações e não de apenas de alguns, muitos ou talvez até todos os seus membros.

Há poucos dias, com evidente exagero, o governo disse que o episódio da investigação, por membros do Ministério Público Federal, de forma nada burocrática, do caso Waldomiro Diniz, era um episódio de “conspiração” para derrubar o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o próprio presidente Lula. Agora, com a insatisfação entre os militares, talvez alguém do governo, demonstrando injustificada insegurança, possa achar que estamos à beira de um golpe de Estado. Nada disso. Como diz o brigadeiro, cobra-se hierarquia e disciplina aos militares. E eles, desde o fim da chamada revolução de 1964, têm seguido, com coesão, a redemocratização do País. Além de seguido, participado. O que há, como informa o brigadeiro Luiz Carlos da Silva Bueno, é “uma possibilidade real de florescer insatisfação social” nas Forças Armadas”. Acrescentou que “é notória a depreciação do poder aquisitivo dos integrantes da Forças Armadas, em todos os níveis funcionais, decorrente de uma prolongada estagnação dos valores de soldo, referencial utilizado”.

Como se sabe, o governo propôs aumento para o funcionalismo público federal do Poder Executivo, excluindo os militares, sob o argumento de que não há dinheiro suficiente para dar-lhes melhores soldos. O documento do chefe da Aeronáutica acusa que há diminuição do poder de compra dos militares. Isto também ocorre entre os funcionários civis e em relação a toda a população. Estatísticas e estudos sérios comprovam.

Em abril do ano passado, o brigadeiro fez uma cobrança direta a Lula. Pediu mais recursos para recuperação da capacidade operacional da Aeronáutica. Lula não disse sim nem não. Afirmou que tudo será feito de forma “realista” e “responsável”. O comando da Aeronáutica, ao cobrar hierarquia e disciplina de seus subordinados, ao mesmo tempo em que denuncia o descontentamento com os soldos, reitera a proibição de reivindicações públicas ou insinuações de greve. Militares não podem fazer greves.

Mas, há poucos dias, aproveitando manifestações de cobranças e protestos de outras classes, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, esposas de militares fizeram um panelaço, pedindo aumento para os seus maridos. Certamente não agiram contrariando seus maridos. E elas, civis, não podem ser proibidas de protestar. Aí, verifica-se a insatisfação denunciada pelo brigadeiro, transformada em ruidoso protesto, mesmo que não diretamente pelos membros descontentes das Forças Armadas. O governo federal, de uma posição de omissão, passou a admitir aumento também para os militares. A assessoria do ministro José Viegas, da Defesa, informou que uma comissão estuda o formato de uma proposta de aumento, “dentro do contexto atual da economia”.

No panelaço, consta que um sargento da ativa de nome Cardoso estava presente, mostrando o seu contracheque com valores defasados. Estão tentando identificá-lo para puni-lo. Não há fogo, mas existe fumaça.