Acendeu uma luz amarela para o Brasil no mercado financeiro internacional. Mas, desta vez, não é um alerta de perigo à frente. É um sinal de relaxamento, de quase alívio. Para quem vinha encontrando um sinal vermelho em cada esquina nos últimos três meses, o amarelo que se acendeu é um sinal de que o Brasil pode encontrar sinal verde entre analistas e investidores mais cedo do que se podia prever. Desconte-se o conhecido efeito manada dos mercados, onde más e boas notícias são amplificadas ao extremo, e não há como não notar que os papéis brasileiros entraram numa rota de ascensão.

O gatilho para esse movimento foram as recentes declarações de integrantes do PT, garantindo que o partido vai manter uma política fiscal austera para equilibrar as contas públicas. Para o diretor de Pesquisa de Mercados Emergentes do banco de investimentos Goldman Sachs em Nova York, Paulo Leme, a reação do mercado às palavras dos dirigentes petistas mostra que “há um prêmio para a gestão ortodoxa da política econômica, a única saída para a atual crise financeira e de confiança”.

Papéis brasileiros voltaram a ser comprados no mercado internacional, ainda que em operações especulativas. Hoje (24), o C-Bond, o título da dívida externa mais negociado e que funciona como uma espécie de termômetro para o tamanho dos juros que uma empresa ou o governo brasileiro poderiam pagar ao recorrerem a empréstimos, teve valorização de 2,26%, fechando em 56,438% do valor de face, mesmo num dia em que as bolsas americanas caíram.

Desde o dia 16 de outubro, a valorização é de 14,89%. Nesse cenário, o risco país, calculado a partir de uma cesta de títulos da dívida, caiu 5%, para 1.767 pontos, o nível mais baixo desde 13 de setembro.

Também hoje, em outro indicador dos novos ventos que começaram a soprar há alguns dias, recibos de ações de empresas brasileiras negociados na Bolsa de Valores de Nova York tiveram valorizações que há tempos não se viam. O papel ordinário (ON) da Petrobras subiu 6,7% em Wall Street.

Para Leme, a alta dos títulos da dívida reflete muito mais uma atitude defensiva de muitos investidores, que estavam apostando na queda e desmontaram suas posições vendidas, “para não serem pegos de surpresa e sem ativos brasileiros caso boas medidas sejam anunciadas a partir da segunda-feira”. Além da cobertura de posições vendidas, Leme afirma que houve algumas compras de investidores brasileiros e, em menor escala, por fundos especulativos internacionais (hedge funds) e fundos dedicados a mercados emergentes.

Leme enumera os três pontos que mais agradaram ao mercado nos últimos dias: o compromisso com o superávit primário necessário para estabilizar a relação dívida/PIB; o esclarecimento de que os juros não vão cair sem que as condições econômicas permitam relaxar a política monetária; e a rejeição enfática ao controle de câmbio.

“Agora, o mercado vai querer que esses sinais se traduzam em decisões corajosas de política econômica. Na votação do Orçamento para 2003, seria importante um aumento do superávit primário, para algo como 5% do PIB e que isso seja obtido por cortes de despesas. Além disso, é fundamental que o aumento do salário mínimo e do funcionalismo não supere a variação da inflação.”

Para Leme, se o receituário ortodoxo for seguido, incluindo o encaminhamento de reformas estruturais como as reformas tributária e previdenciária, a percepção de risco pode cair ainda mais.