Na Comissão de Fiscalização e Tributação do Congresso começou um movimento de pressão sobre o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, contra as altas taxas de juros que vem ditando. Aliás, esse movimento de pressão já havia começado tendo como seu arauto o próprio vice-presidente da República, José Alencar (PL), que vem discordando dos rumos da política econômica do presidente Lula, do qual é o substituto. Há uma diferença essencial entre Alencar e Meirelles que talvez justifique suas óticas diferentes a respeito de economia e finanças. O vice-presidente é um empresário, enquanto Meirelles, um técnico.

Segundo se informa, do grupo de parlamentares que se insurge contra as altas taxas Selic impostas pelo Banco Central fazem parte não só oposicionistas, mas também situacionistas de fora do PT e cerca de três dezenas de petistas. Portanto, não se trata de uma rebelião dos chamados rebeldes do partido de Lula e, sim, um movimento de maior extensão, que pode estar anunciando um racha de grandes proporções.

Justifica Meirelles a taxa Selic de 26,5% com o argumento de que ela é essencial para o combate à inflação e que a elevação dos juros tem sido o remédio, diga-se de passagem, muito amargo, que os bancos centrais da maioria dos países utilizam para conter as altas de preços. Isso é verdade, sempre que a inflação é identificada como de demanda. Um aumento na procura de bens e serviços, facilitado pelo crédito e um desequilíbrio com a oferta, que se torna insuficiente. É a velha e nunca revogada lei da oferta e da procura.

Mas, seria a nossa inflação dessa natureza? Seria a inflação brasileira de demanda? Há dados que fazem desconfiar que não. Aliás, fazem imaginar que a inflação brasileira ocorre exatamente por razões contrárias ao acirramento da demanda.

Revelou-se esta semana que em São Paulo, maior centro econômico do País, o desemprego foi o maior desde 1985, atingindo 20,6% da força de trabalho no último mês de abril. O levantamento foi feito pelo Seade/Dieese. Esse percentual é assustador, se considerarmos que se dá na nossa maior megalópole e centro econômico. E, para cada desempregado, sempre há uma família de dependentes que passa a não ter o que comer e a ver alimentadas suas desesperanças. De outro lado, pesquisas revelam que a massa salarial dos trabalhadores vem diminuindo não só pelo desemprego, mas porque os reempregados passam a ter de aceitar salários inferiores aos do último emprego que perderam. Como conseqüência dessa dura realidade, a população passa a consumir menos. E as empresas a retrair-se, reduzindo-se o desenvolvimento econômico do País. O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, confessou isso, há poucos dias, quando fazia palestra para petistas sem saber que suas palavras estavam sendo admitidas.

A crise econômica e suas duras conseqüências sociais se agravam e os remédios aplicados se destinam a curar males mal diagnosticados. Politicamente, essa política de retração, juros altos, voracidade tributária e ortodoxia que nem Malan e Armínio Fraga ousaram, fazem prever que haverá um dia, que não está muito longe, que ou o governo muda sua política econômica, ou perde a sustentação que ainda tem não só no Congresso como, e principalmente, na opinião pública. É hora de conferir para que se verifique se a política econômica do governo Lula não está no rumo errado, pois é a mesma do governo FHC, que o PT abominava.