A repetição de chavões e platitudes tem tornado enfadonhos os recentes discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo informações, o discreto ministro Luiz Dulci, que nesse aspecto faz justiça ao fato de ter nascido nas Minas Gerais e ser adepto do low profile, tem redigido os pronunciamentos de sua excelência.

Contudo, o presidente não se sente à vontade lendo um texto previamente preparado – nota-se isso claramente na televisão – preferindo o improviso repetitivo, demagógico e, pior, correndo o risco de pouco ou nada afirmar de relevante e fundamental. Nos últimos discursos, ouviram-se perorações que tornam quase obrigatório o lançamento duma antologia do pensamento presidencial no período 2002-2006.

Para quem afirmou enxergar em si mesmo certa semelhança com o papa, a quem os padres sempre pedem mais alguma coisa, deu conselhos sobre a educação dos filhos, duvidou da existência de brasileiro mais ético, mesmo tendo participado de evento com a presença do humilde funcionário da Infraero, que devolveu a bolsa com dez mil dólares achada num banheiro do aeroporto de Brasília, e responsabilizou a elite pelos tropeços do governo, nenhuma declaração surpreende.

Esta semana, Lula jogou às favas a continência oratória e a própria modéstia, que melhores efeitos produziriam nesse período de vacas magras (gordas para os usuários do valerioduto), invocando de cambulhada os ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.

Imitar o gesto extremo de Getúlio, que saiu da vida para entrar na História, nem pensar. Renunciar como Jânio ou Goulart (aí Lula errou porque não houve renúncia e sim deposição por golpe), também não faz parte de seu ideário.

Dos quatro, o presidente decidiu espelhar-se em Juscelino e exercitar à exaustão a paciência, também conhecida como a mãe das virtudes. Não se sabe se por trás dessas palavras haja a intenção de varrer para debaixo do tapete a polvadeira da crise. O correto é pensar quão ressentida ficaria a população que reclama atitudes rápidas e intimoratas.

É tempo de o presidente assumir postura de estadista e dizer coisas que a nação está ansiosa para ouvir. Não há submissão que agüente a repetição de máximas acacianas de baixo teor de convencimento. As rosadas lentes usadas pelo mítico Pangloss são contra-indicadas para arrefecer a luminosidade que põe a nu as vísceras do poder.