O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) José Rainha Júnior realizou, neste sábado, um ato de desagravo ao ex-ministro José Dirceu envolvido nas denúncias de formação de caixa 2 no PT, e rachou o movimento numa das regiões mais emblemáticas da luta pela terra no Brasil.

À revelia das direções estadual e nacional, Rainha reuniu 1.200 militantes no Pontal do Paranapanema e anunciou uma jornada de invasões para "fazer tremer o latifúndio". As ações vão ocorrer no período de 26 a 30 deste mês e não se restringirão ao Pontal.

Rainha defendeu, em carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o engajamento do povo na luta em defesa do governo. "Saiba que você não está só, que estamos alertas e em luta constante para defendê-lo", diz a carta, referindo-se a Lula. Outras lideranças do movimento disseram que as posições de Rainha não refletem necessariamente a do MST.

Em um palco montado no assentamento São Bento, em Mirante do Paranapanema, formado a partir da primeira invasão do MST em São Paulo, Rainha leu uma carta aberta transmitindo ao "companheiro de lutas, deputado Zé Dirceu, a profunda solidariedade dos assentados e acampados do MST".

"Os que não têm hoje respeito por você e querem cassar o seu mandato são os mesmos que ontem estavam à sua caça para colocá-lo nos porões de tortura". Aclamado pelos sem-terra que lotavam um galpão, o líder pode ser punido pela direção nacional do movimento.

Na mesmo momento do ato, os dirigentes do MST estavam reunidos em Ribeirão Preto justamente para definir uma posição sobre a crise do governo. "O Rainha se antecipou, assumiu uma posição que não é exatamente a do movimento e pode ser expulso", disse uma liderança que pediu para não ser identificada.

Em entrevista, Rainha disse que se dedicará a reorganizar as massas pois é o seu papel. Rainha negou que exista o racha, mas admitiu uma diferença de métodos, entre lideranças do movimento. "Se o MST quer fazer a reforma agrária, precisa mobilizar gente."

Ele contou com o apoio da Associação dos Municípios com assentamentos da reforma agrária no Pontal para reunir os militantes. A vinculação com as Prefeituras desagradou ao MST. Líderes nacionais pediram ao senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e ao deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) que demovessem Rainha do encontro. O líder disse que soube disso pelo próprio Greenhalgh.

De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Agrário de Mirante Itamar Cavalcante, que também participa do movimento, o racha está acontecendo em todo o Brasil. "Os líderes do Nordeste que pensam como o José Rainha não aceitam a hegemonia do pessoal do Sul na direção do movimento."

As relações de Rainha com o MST estão estremecidas desde a época em que o líder participou da administração da Cooperativa dos Assentados do Pontal (Cocamp), no final da década de 90. Acusado de desvio de recursos públicos, ele está sob investigação da CPI da Terra.

Rainha teria tomado um empréstimo de R$ 270 mil em nome da cooperativa. Ele alegou ter usado sua conta pessoal porque na época a entidade estava sem crédito. Ele acredita que foi denunciado pelos próprios companheiros. Rainha convidou José Dirceu para comparecer ao encontro, mas o deputado alegou compromissos com a direção nacional do partido. Ele encaminhou um convite ao presidente Lula para visitar a região.