Notícias velhas esquentam o noticiário atual para denunciar, no mínimo, o envolvimento de agentes dos poderes constituídos com esse poder paralelo do crime organizado que a cada dia se demonstra o mais estruturado de tudo quanto se imagina. A meada que se descortina pelo fio da morte do repórter Tim Lopes seguramente ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro. E, na frouxidão com que o Estado trata delinqüentes de todos os calibres, pode estar o indicativo de seu comprometimento até aqui pouco questionado. A republicação de uma entrevista de “Elias Maluco” – o tirano da Favela da Grota – , concedida em 1995, é exemplo disso, quando ele, já na época, gabava-se de ter escapado da cadeia mediante o pagamento de oitenta mil reais a policiais.

Deve-se, assim, dar ouvidos e holofotes ao que está dizendo o procurador Antônio Celso Três, do Ministério Público Federal em Brasília, quando anuncia que vai requisitar da Polícia Federal, para acurada análise e devidos fins, uma lista com cerca de 35 mil nomes de pessoas e empresas envolvidas com remessas ilegais de dinheiro para os Estados Unidos, naquela que foi definida como a maior lavagem de dinheiro já investigada no Brasil. Entre os anos de 1996 e 1997, segundo informações já conhecidas, sumiram do Brasil cerca de 12 bilhões de dólares através de operações que tinham por base Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai. Sabíamos, entretanto, dos milagres; não dos santos.

A novidade é a lista dos envolvidos, que teria sido obtida no começo deste ano, depois que autoridades norte-americanas liberaram informações relacionadas à lavagem de dinheiro, em conseqüência da ação antiterror desencadeada pelos atentados de 11 de setembro. O promotor avisa que o conteúdo dela é explosivo, já que integrada por nomes de políticos famosos, grandes empresários e altos funcionários públicos. Devido a isso, adianta que já estaria em andamento um plano para impedir sua divulgação.

A suposição não existe sem fundamento. Quem conseguiu a lista, segundo se informa, foi o delegado José Castilho, da Polícia Federal. Logo depois do feito, ele foi afastado do caso e sofre processo administrativo, sob a acusação de não ter desempenhado a contento as investigações que duraram cerca de cinco anos e, passando de mão em mão, envolveram diversos delegados. Segundo observa o procurador, que à época trabalhava em Cascavel (depois de passar dois anos no Rio Grande do Sul, está agora em Brasília), Castilho foi um dos poucos que conseguiram resultados realmente importantes, ao investigar as operações realizadas pela agência de Nova York do antigo Banestado, hoje comprado pelo Itaú. Todos os 35 mil nomes referem-se a pessoas que enviaram dinheiro por meio de esquema montado através de doleiros.

O Paraná e, especificamente, Foz do Iguaçu, compõem a desgraçada rota do crime organizado. São fatos concretos e recentes que evidenciam isso e comprometem a nossa polícia. E aos que se opõem à ação por vezes “barulhenta” do Ministério Público, é importante que se considere que nessa área a publicidade é, por vezes, o único aliado dos que lutam nas falanges do bem. Que não tenhamos que reler a entrevista do procurador Antônio Três daqui a cinco ou seis anos para dar-lhe razão. Que venha logo à luz essa maldita lista!