Tudo o que poderia ser agregado em termos de respeitabilidade, descortino e acurácia jurídica, sobretudo em relação à pessoa do ministro Ricardo Lewandowski, um dos nomeados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a declaração que o STF ?votou com a faca no pescoço? no inquérito do mensalão, no mínimo, ficou bastante prejudicado.

A apreciação não poderá, no entanto, englobar os demais ministros da suprema corte, até pela reação imediata de alguns deles e da nota oficial expedida pela presidente Ellen Gracie, reiterando ?que o STF não permite nem tolera que pressões externas interfiram em suas decisões?, além de asseverar que ?os fatos, sobretudo os mais recentes, falam por si e dispensam maiores explicações?.

Os comentários de Lewandowski, durante telefonema a um irmão, no interior de um dos restaurantes brasilienses mais freqüentados por políticos e jornalistas, aparentemente, sem a menor preocupação com que suas palavras fossem ouvidas por circunstantes (e foram), criaram um clima de visível constrangimento entre os colegas do STF.

Aliás, ofereceram também ao ex-ministro José Dirceu, sobre quem Lewandowski citou explicitamente uma suposta operação de ?amaciamento?, a pronta e personalíssima interpretação de que o julgamento do STF ?está sob suspeição?.

Ora, se pelo menos um dos ministros votou ?com a faca no pescoço?, ou teria recebido pressão para ?amaciar as coisas para o José Dirceu?, pelo menos uma fímbria de razão acoberta a versão solerte do ex-chefe da Casa Civil.

No calor da hora, o ministro Marco Aurélio Mello (nomeado por Collor), que se confessou ?perplexo e impactado?, foi ao cerne da questão e doutrinou que a afirmação de Lewandowski pode dar margem a um pedido de anulação do julgamento.

O loquaz ministro procurou pessoalmente os colegas para desfazer o embaraço, mas como bem comentou Marco Aurélio, o gancho incômodo poderá se transformar em achaques posteriores.

Lewandowski confirmou ter-se sentido com ?a faca no pescoço?, debitando-a a intensa pressão feita pela imprensa durante o julgamento histórico, mas reconheceu que os demais colegas votaram de forma independente. O ministro precisa de um exegeta.