De fato, deve assistir razão ao ministro da Integração Nacional, o bisado ex-candidato à Presidência da República Ciro Gomes. Ele só fala sobre reforma tributária ou sobre a transposição das águas do Rio São Francisco, e esses jornalistas bisbilhoteiros querem saber o que ele pensa sobre a reeleição do presidente Lula. Está bem que haja quem ostente gravações nas quais o ex-candidato teoriza sobre o segundo mandato do chefe, tarefa para a qual se coloca à inteira disposição a qualquer hora ou lugar, mas lá isso são coisas para ficar publicando? Ora, “vão catar coquinhos…”

Além das confissões sobre um passado de oposição sistemática como tática para a tomada do poder, não sabemos ainda – digamo-nos tudo – exatamente a que veio o governo Lula. Imaginamos apenas e temos esperanças de que vá, de fato, cumprir aquilo que prometeu. Aliás, ele prometeu cumprir tudo o quanto prometeu. E mais de uma vez. Mas estão aí o Fome Zero ainda como um programa em arrancada, já batizado de “fome nota zero”; os juros nas alturas, premiando a especulação sobre a produção em queda; os índices de desemprego nos mesmos recordes ou maiores; a violência organizada solapando a autoridade constituída, e tudo o mais.

É pouco tempo – repetirão à impaciência – para se fazer juízo sobre o governo Lula, ainda embalado no sonho bom das esperanças populares. Mas onde estão as razões para o ministro Ciro Gomes – assim como outros que já andaram falando por aí – sair em defesa de um segundo mandato de alguma coisa que sequer começou? Quem deve catar coquinhos? Afinal, quem colocou o segundo mandato de Lula em discussão e a que serve esse discurso?

Começando pela última pergunta: esse discurso não serve a ninguém. Diz e repete o próprio presidente que quem tem pressa come cru. E seria açodamento exagerado levantar a tese da reeleição – pelo menos formalmente – no quinto mês de um governo de quatro anos. Não houve tempo sequer para a composição de todos os postos de comando, não começaram ainda os embates parlamentares para valer e, a menos que decidir a segunda rodada seja condicionante para começar a primeira, uma eventual reeleição dependeria da água que ainda haverá de correr debaixo da ponte. E sobre águas futuras, nem São Pedro responde.

O curioso é que a penúltima pergunta encontra resposta no que diz o próprio presidente Lula. Foi ele mesmo que colocou o tema em debate ao repetir – e não se desconfie de segundas intenções! – a afirmação de que quatro anos é muito pouco tempo para quem está cheio de programas para executar. Repetiu o feito na reunião-almoço que fez com os comandantes do PSDB, na quinta-feira que passou. Ao mesmo tempo em que batia no peito em mea culpa explicativa no caso da oposição sistemática do PT ao governo de FHC (“Nem todo mundo dorme e acorda na mesma hora”), ele lembrou que quatro anos demoram a passar para quem faz oposição, mas, para quem está no governo, passam rápido demais. Vai daí que…

Ora, antes que o ministro da Integração Nacional mande os eleitores todos catar coquinhos (por enquanto é só os jornalistas), é bom que se responda à primeira das colocações: quem tem a obrigação de catá-los – isto é, trabalhar duro e cumprir promessas nos quatro anos constitucionais para os quais foi eleito – é o governo. Outros quatro dependem desses primeiros. Para que não se diga, depois, outra vez, que acordou tarde demais.