O presidente Lula recebeu em palácio, quarta-feira passada, uma turma de professores vindos de diferentes regiões do País. Era o Dia do Professor. Entre os visitantes escolhidos a dedo estava uma antiga professora do ora presidente, que há 47 anos deu aulas durante apenas três meses ao retirante nordestino. O “aplicado e não muito falante” aluno não terminou os estudos porque tinha que trabalhar – lembra Justa Tarifa Valentin, a professora. O cenário montado sugeria mais que um encontro simbólico, desses em que Lula costuma vestir o boné do visitante.

Conta a crônica que Lula não deu muita atenção àquela senhora de 69 anos, cuja lucidez – para recordar de um aluno temporário de quase meio século atrás – é impressionante. Nada lhe disse de especial. Justa, entretanto, conformou-se: “Não dava tempo, é assim mesmo”. Um bom professor ninguém esquece. Fica para o resto da vida. Aqui, entretanto, inverteram-se os papéis. Sinal dos tempos e marca registrada da era atual, quando a escola, que em alguns lugares ainda se chama grupo escolar, virou uma unidade, ou uma seca engrenagem, na linha de montagem da indústria do ensino.

Esperava-se mais do encontro de Lula com os professores no primeiro Dia do Professor de seu governo. Excluindo-se o lugar-comum do discurso (“nós ainda temos uma dívida muito grande com a educação, neste país”), praticamente nada aconteceu digna de registro. O tumulto causado pelo clima de, como se diz hodiernamente, tietagem do encontro, roubou precioso tempo do presidente, que também perdeu palavras para dizer o óbvio ululante: que o mandato do presidente passa, enquanto os professores continuam na profissão. Uma profissão cujo trabalho, conforme recentes estudos do Ministério da Educação, é muito mal remunerado, chegando a valer metade ou menos do que é pago para um policial sem muita erudição.

Para corrigir o mal, apenas promessas de que promessas serão cumpridas: “Podem ficar certos de que estamos dispostos a cumprir com os compromissos que assumimos”, disse o presidente aos professores munidos de máquinas fotográficas. Quem está no governo não promete, realiza. Ademais, os compromissos assumidos em campanha incluem mesmo o que, com relação aos professores e ao ensino neste País ainda deitado em berço esplêndido?

O tempero ficou por conta do ministro Cristovam Buarque, da Educação. Até poucos dias, muitos apostavam na sua saída do governo, devido a suas recorrentes críticas à falta de recursos para a grande revolução cultural do Brasil. Buarque não só continua reclamando da falta de verbas, como acabou por receber público elogio do presidente à frente dos professores. Ninguém mais que ele está “sensibilizado, afinado e comprometido” com as mudanças na educação, disse Lula, outra vez referindo-se à precariedade de muitas escolas e ao estômago de muitos alunos que ronca durante as aulas…

Já longe do palácio, o ministro afirmou que Lula não foi eleito apenas para administrar bem o Brasil, mas para promover mudanças. E anunciou que em breve haverá de anunciar um programa de financiamento da casa própria para professores em meia dúzia de pequenos municípios. Ah, e que o governo vai ampliar o programa de crédito para a compra de computadores por parte de professores (coisa ainda do governo anterior, tão criticado pelo governo que aí está). Seguimos, assim, a mesma estrada de sempre, criando exceções à regra geral da cidadania, segundo a qual cada um compra a casa que quer com o dinheiro justo e ganho com o suor do trabalho digno. O ministro Buarque bem que podia lembrar ao governo a que serve que os professores – real esperança de mudança – gostariam de algo mais sólido e promissor que simples migalhas…