O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu à cúpula de sua campanha que riscasse do programa de governo para o segundo mandato todas as críticas aprovadas pelo PT à política econômica e ao Banco Central, há quatro meses, mas autorizou o ataque ao antecessor Fernando Henrique Cardoso. "FHC merece isso", disse Lula a auxiliares, na semana passada. "Quem são esses tucanos para falar de ética?"

O conteúdo da pergunta de Lula consta do seu plano de governo para o período 2007-2010, lançado na terça-feira. A estratégia do QG petista consiste em carimbar o governo FHC como foco de "corrupção generalizada", na tentativa de criar "vacinas" contra o bombardeio que virá pela frente.

As informações que chegam ao Planalto são de que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, partirá para uma linha de confronto mais duro. Foi por esse motivo que Lula deu aval à tática de abrir fogo. Quer colar a imagem do adversário à de FHC, cujo governo aparece mal avaliado em pesquisas qualitativas encomendadas pelo PT.

A orientação já constava de "Diretrizes para a Elaboração do Programa de Governo", texto aprovado no 13.º Encontro Nacional do PT, em abril, que pregava a necessidade de uma "confrontação político-ideológica" capaz de "desconstruir" o discurso tucano. O que Lula mandou mudar foi a parte referente à economia. Não gostou das estocadas explícitas no Banco Central.

A lipoaspiração foi feita para abolir referências consideradas prejudiciais ao governo durante a campanha. A versão oficial, no entanto, é de que o texto era uma coisa – um documento político do PT – e o programa, outra, montado com os aliados.

Transição

Na prática, as diretrizes que nortearam o plano da reeleição faziam um diagnóstico preocupante. "Tendo como objetivo conduzir a transição de um paradigma neoliberal para outro padrão de desenvolvimento, a obra do governo Lula é ainda parcial, desigual e incompleta", constatava o PT.

Com o argumento de que a "autonomia operacional" do BC, "revestida de um discurso conservador", chocava-se com as bases sociais e com o próprio governo, o texto também recomendava que a instituição adequasse sua agenda ao "conjunto dos interesses da sociedade".

Tudo isso sumiu do programa para o segundo mandato, que nem cita o BC. A redação, que recebeu sinal verde na reunião do PT – depois de emendas -, defendia a fixação de "metas sociais". Mais: alegava que "elevados superávits primários" – a economia de gastos para pagamento dos juros da dívida – haviam subtraído recursos para investimento e custeio, "com conseqüências negativas para o desempenho do governo".