O ministro Sepúlveda Pertence, do STF, considerou que as estranhas declarações de Lula, feitas em discurso pronunciado no Espírito Santo, nas quais disse que lhe denunciaram corrupção em privatizações no governo FHC e que mandou silenciar para não comprometer o bom nome do Brasil, não foram ofensivas à administração anterior e ao PSDB. Assim, foi para os arquivos a interpelação do PSDB a Lula, que queria explicações sobre tão ambígua acusação. Severino Cavalcanti, o velho político e novo presidente da Câmara, diante de requerimento do PSDB interpelando Lula, tomou decisão igual, mandando-o para a gaveta.

É obrigação de um presidente da República, diante de denúncia de corrupção no governo, mesmo que não seja em sua administração e sim na de seu opositor e antecessor, mandar investigar. Silenciar é crime.

Os arquivamentos não acabaram com a novela, pois o PSDB recorreu da decisão de Severino à mesa da Câmara e, no Senado, existem interpelações no mesmo sentido. E o procurador-geral da República estuda uma ação contra Lula por andar espalhando farinha no ventilador. E tentar limpar tudo com a recomendação de silêncio. Tanto a decisão no Supremo quanto a de Severino foram políticas e de difícil justificação jurídica. Melhor que essa briga acabe logo, pois ela está alimentando uma crise política que os arquivamentos não foram ainda capazes de encerrar.

Enquanto brigam, o País não anda ou apenas se arrasta e o Congresso atrasa decisões importantes. A coisa virou briga de guri pançudo e nós, o povo, nada podemos fazer. Nem apartar. O episódio, com múltiplos capítulos, alguns encerrados e recomeçando e outros ainda nem começados, é como a xingação de mãe. Nas brigas corriqueiras entre pessoas comuns, xingar a mãe não significa necessariamente ofender a genitora do desafeto. ?Seu filho da…? não indica nenhuma referência ao bom conceito da genitora do adversário. É uma ofensa que sai de um contendor e choca-se contra o outro. A mãe muitas vezes nem é conhecida e sua reputação não está em jogo.

Assim, as decisões do STF e de Severino, arquivando as representações e interpelações, interpretaram as palavras do presidente como inconseqüentes confidências entre Lula e o povo, em que se disse que houve corrupção, identificou-se em que governo, mas tanto o ex-presidente quanto seu partido são mães de xingação, absolutamente inocentes.

E Lula falou em corrupção em que não existem corruptos e exonerou-se da obrigação de mandar investigar o que lhe foi revelado. Num país em que vale tudo, também vale a anistia geral, mesmo que prejudique os interesses do povo e da democracia.