Viraram mania na internet os sites de “virunduns”. Para quem não sabe, são as versões de músicas criadas involuntariamente por pessoas que entenderam errado a letra. O nome “virundum” vem do verso inicial do Hino Nacional Brasileiro, “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Há exemplos clássicos, como o “tocando B.B. King sem parar”, da música Noite do Prazer, de Cláudio Zoli, que ouvidos desatentos interpretam como “trocando de biquíni sem parar”; em Blowin? in the wind, de Bob Dylan, “the answer, my friend” (“a resposta, meu amigo”), vira “the ants are my friends” (“as formigas são minhas amigas”); em I wanna be sedated (“Quero ser sedado”), dos Ramones, o verso-título pode ser confundido com “I want a piece of Danish” (“quero um pedaço de dinamarquês”); há fãs dos Paralamas que confundem a palavra “trenchtown”, na letra de Alagados, com “cristal” ou “Flintstones”. Em sites como www.kissthisguy.com ou www.virunduns.blogger.com.br o internauta pode se divertir com as versões cômicas geradas pelas falhas auditivas dos incautos. Diferentemente de outros mal-entendidos, que podem ter sérias conseqüências, esses “virunduns” no máximo fazem o autor da pérola “pagar micos”.

Não é só na música que ocorre esse tipo de transformação. Mal-entendidos provocam o surgimento de termos como “cuspido e escarrado”, corruptela de “esculpido e encarnado”, que é uma forma alternativa de dizer “cara de um, focinho do outro”. Nos esportes motorizados, é muito comum as pessoas confundirem cilindrada (capacidade volumétrica de um motor, resultante da soma dos volumes de deslocamento de cada pistão dentro dos cilindros) com as unidades que a medem, que são o centímetro cúbico (também conhecido pelo símbolo “cm3” e pela forma abreviada “cc”), a polegada cúbica e o litro. Os 500 cm3 de cilindrada das motos de competição viraram “quinhentas cilindradas”, provavelmente porque alguém não entendeu bem a expressão “quinhentos de cilindrada”.

Mas esses mal-entendidos musicais e lingüísticos são inofensivos. Em outras áreas, há confusões que podem provocar graves danos. Nos anos 90, uma declaração mal-interpretada de uma criança resultou numa espécie de linchamento moral dos proprietários da Escola de Base, em São Paulo, que foram acusados de pedofilia por vizinhos, pela polícia e pela imprensa. Depois, ficou comprovado que eles eram inocentes, mas a falsa denúncia causou danos irreparáveis aos acusados.

Agora, três parlamentares do PT estão prestes a ser expulsos do partido por terem manifestado opinião contrária à proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo Lula. A cúpula petista parece não entender que, se as reformas ainda não foram votadas, não há motivo real para punir os chamados “rebeldes”, que nada fizeram além de defender posições históricas do partido. Alguém precisa dizer aos caciques petistas que eles estão confundindo opinião com voto e que esse mal-entendido também pode acabar em linchamento.

Ari Silveira

(ari@pron.com.br) é chefe de reportagem de O Estado.