Muito se tem reclamado da globalização ou dos males que vem causando a países menos desenvolvidos. E em especial por ter se mostrado um processo em que o mundo, transformado numa aldeia global, não se mostra capaz de resolver os problemas das nações mais pobres. Pelo contrário, torna-as mais pobres e mais dependentes dos países ricos.

Nessa grita estamos os brasileiros, embora seja hora de admitir que a globalização pode, aqui e ali, ser contida em seus efeitos maléficos, através de entendimentos entre os países, acordos multilaterais, também globais. A globalização das comunicações é um processo sem retorno, salvo em um ou outro caso, como o de Cuba, onde o regime de Fidel Castro proíbe a internet, sem contudo impedir que as notícias do exterior filtrem por outros meios e adentrem a sua ilha.

Quando jovens pobres e desocupados, jogados na marginalidade, e aos bandos, atacaram turistas nas praias da zona sul do Rio de Janeiro, proporcionando cenas chocantes, tão lamentáveis fatos, filmados, percorreram o mundo. Um jornal londrino de grande destaque acaba de qualificar o Rio como sede da cocaína e da carnificina, para desgosto dos cariocas e lamento dos demais brasileiros, que sempre se ufanaram de sua Cidade Maravilhosa.

A conseqüência é que a “maledicência” do jornal londrino espalhou-se pelo mundo e as fundadas desconfianças dos estrangeiros a respeito do Rio e, conseqüentemente, do Brasil, como zona de perigo, aprofundaram-se. O resultado é que muitos investidores estrangeiros, sejam especuladores no mercado financeiro, sejam aplicadores em investimentos diretos, puseram um pé atrás. Ou os dois. Por que investir num país tão perigoso e com tanta miséria se outras plagas por aí existem, lugares onde o dinheiro dá também frutos e com maior segurança? Milhões, senão bilhões, deixaram de entrar no Brasil por um fato, o assalto nas praias, que entre nós, face à repetição, até banalizou-se.

A edição de 2005 do Guinness Book, o livro dos recordes, que será publicado em novembro, tem um dado nada bom para o Brasil. O País apresenta o maior índice de desmatamento do planeta. Florestas que ocupavam uma área do tamanho de Sergipe desapareceram do nosso território, entre 1900 e 2000. Em 2002 e 2003, segundo registra a publicação, a taxa de desflorestamento foi de 23.750 quilômetros quadrados.

O mundo dito civilizado, onde a maioria dos países ditos desenvolvidos e que têm dinheiro para investir já destruiu há muito suas florestas, hoje tem a consciência de que das nossas dependem o ar que se respira no globo terrestre, o clima que pode virar um desastre com o efeito estufa, o fornecimento de água que, escasseando, pode ser o novo motivo para guerras sangrentas. Eles querem que preservemos as nossas florestas e nós também devemos querer. E se não o fizermos, neste mundo global não será de se admirar que intervenham em nosso território para fazê-lo, seja via ONU ou outro organismo, seja através de países imperialistas que pensam que aqui é seu quintal. O Brasil acaba de cair do 9.º para o 17.º lugar entre os países atraentes para investimentos.

Sempre nos apressamos em desmentir a “maledicência”, dizendo que nossa política oficial é contra o tráfico, contra o crime, contra o desmatamento, contra os ataques a turistas, etc. Que somos um país civilizado. É preciso defender publicamente o Brasil. Mas, cá entre nós, a análise maledicente é tão globalizada que os próprios brasileiros já acreditam nela.