Está certo que o fato de o presidente Lula ter subido nas pesquisas seja motivo de alegria para muita gente encastelada no Planalto. Isso, de certa forma, é bom também para o País. Mas querer atribuir à reanimação da imagem presidencial a impaciência que tomou conta de próceres da oposição, depois que veio à luz aquela lista de envolvidos na remessa ilegal de dinheiro para o exterior, é puro exagero. É tomar alhos por bugalhos.

No episódio da lista, a discussão derivou para o secundário. Em vez de se debater sobre a remessa ilegal de dinheiro e seus autores, está-se à procura dos autores do vazamento das informações que, segundo o que se alcança, tem fim meramente eleitoral. Ou eleitoreiro, dependendo do ponto de vista. O bate-boca envolve figuras de primeira grandeza na República, como o senador Tasso Jereissati e o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, apontado pelo líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio, como um dos autores da façanha. Com “a cara de Zé Dirceu” ou não, o vazamento está sendo considerado pelo presidente do Senado, José Sarney, como “um dos mais graves fatos ocorridos ultimamente no Congresso”.

Mas agora que conhecemos alguns nomes, seria de bom tamanho que soubéssemos quem são, afinal, todos os demais envolvidos. Por que não?

Em defesa de Dirceu saiu o presidente do PT, José Genoino, para quem os tucanos são reféns do apavoramento diante do sucesso do governo Lula, do esvaziamento do próprio discurso e da possibilidade de ampla vitória do partido do governo nas eleições municipais que se avizinham. Tanto na reação do chantageado Jereissati quanto naquela do partido da estrela estão as provas mais contundentes de que ninguém está interessado em investigar e, sim, em manipular informações para delas tirar proveito eleitoral.

No discurso empregado, de lado a lado, lava-se roupa suja, vomitam-se verdades e cometem-se hilariedades. Graças a esse debate secundário, por exemplo, sabe-se que o ministro José Dirceu teria andado dizendo por aí que meteria uma bala no peito de Jereissati. Mas como seria grave demais imaginar tal fato, a bala foi tomada no sentido figurado… um disco de computador, por exemplo. Nazistas, stalinistas, bolcheviques e outras históricas figuras do bem e do mal são lembrados com freqüência e muita normalidade através das páginas dos jornais, enquanto nunca se sabe quem fala, de fato, a verdade. O senador Antero Paes de Barros, presidente da CPI do Banestado, por exemplo, acha que os termos da nota de Genoino são “mentirosos e tolos”. Já não apenas o que escrevem constitui mentira, mas os próprios petistas são acusados de mentir. “Têm a coragem de mamar em onça e depois dizer que não foram eles”, ironiza Barros. Como os que alimentam contas em paraísos fiscais e colocam as mãos em sinal de santa beatitude…

Mamar em onça pode não ser nem perigoso, nem muito estranho. A lenda conta que os fundadores de Roma – Rômulo e Remo – sobreviveram graças ao leite de uma mansa e generosa loba. Estranho mesmo seria se fosse a pura verdade tudo quanto Jereissati está afirmando a respeito do projeto das PPPs (Parcerias Público-Privadas), transformadas na menina dos olhos do governo em seu atual estágio de recomposição perante os olhos do público. O projeto encaminhado ao Senado, diz Jereissati, “é o sonho dourado das empreiteiras dos anos 50s, é um convite à corrupção e a maior promiscuidade da história deste País”. Na visão do opositor, o projeto em nome do qual José Dirceu disse que sairia por aí arrombando portas para obter recursos passa por cima da Lei de Responsabilidade Fiscal e da Lei de Licitações, entre outros males de igual monta.

Fica sempre mais evidente que nessa República, onde tudo se mistura, tem gente que usa do que sabe, não para endireitar caminhos, mas para abrir picadas por onde transitam interesses nem sempre confessados. Sarney tem razão ao dizer que isso é gravíssimo e que vai investigar até o fim, nem que custe a cassação de algum colega. Mas seria oportuno que todos os que mamam em onça e negam a façanha fossem, de uma vez por todas, desmamados.