O escritor Milton Ivan Heller – paranaense, sugeriu fosse dado a uma das ruas da ?Cidade Sorriso? o nome da jovem guerreira – Maria Rosa – na Guerra do Contestado 1912-1916. A Joana D?Arc do sertão representa não só a bravura da mulher catarinense, paranaense, mas da mulher brasileira: Ana Neri, Anita Garibaldi, Cora Coralina etc., etc.

Quantos sonhos submergiram nas águas revoltas do Rio Caçador, que arrastaram no turbilhão da correnteza fria o corpo inerte de Maria Rosa. Quantos ideais naufragaram junto com a curta vida desta guerreira dos sertões.

Nome de flor e de santa. Criança peralta que se fez adolescente, jovem que se fez comandante de um povo oprimido e injustiçado. Mulher que se viu pela imposição do destino elevada a líder de uma gente despida de presente e de futuro.

Simples mulher que comandava batalha armada apenas pela aura que veste os verdadeiros heróis. Guerreira que, ao invés da espada com lâmina reluzindo ao sol, impunha um simples facão de guamirim; que, ao invés dos brados da guerra, incitava seus comandos, recitando a oração das Três Marias.

Vinda ao mundo num rancho pobre, oculto nas dobras das montanhas, desde muito cedo, esta filha do anônimo Eliasinho da serra, dava mostras de liderança ao comandar as pencas de caboclinhos nos alegres e divertidos folguedos infantis.

Cria da penúria, passou a infância convivendo com a miséria, sem nunca ter sentado em um banco escolar. Quantas vezes acompanhou o enterro de muitas crianças que pereciam pela falta de recursos, pois o corpo desta guerreira jamais foi coberto por tecidos finos, nem seus pés agasalhados por sapatos confortáveis. A farta cabeleira era embelezada apenas pela água límpida dos córregos e a pele viçosa, tratada pela brisa que espargia sobre ela a essência da floresta.

Guerreira que se cobriu de luto pelos tantos desgraçados que pereceram em Taquaraçu, guerreira que liderou Caraguatá e todos os redutos que estavam sob seu comando e nos quais pulsavam milhares de corações no ritmo de uma vitória que não chegaria jamais, de um reino que só existiu no sonho de um povo que ousou enfrentar a ganância de uma civilização arrogante e predatória.

Mulher destemida que, na iminência de um ataque, deslocou todos os que estavam sob seu comando para o distante recanto das Pedras Brancas, marchando à frente de um séquito de desesperançados que se lançavam em busca de um lugar onde estivessem a salvo de seus muito opressores.

Ungida pelas mãos invisíveis do destino que tecem o tênue fio da sorte e tocada pelo desatino que vomita as teias da desgraça, conheceu a glória que é concedida aos que ocupam o lugar de líder supremo e também o desprezo dos que a substituíram. Uma rainha sem trono e cetro, uma santa sem altar.

Deixou o comando por imposição, por manobras, mas jamais abandonou a causa. Lutou heroicamente, sobrepujando as próprias forças. Morreu acreditando nas vitórias.

Hoje, decorridos mais de 90 anos da grande peleia que ensangüentou os sertões, Maria Rosa ainda vive. Vive em cada mulher da terra catarinense que se faz guerreira na luta pela vida. Mulheres que se lançam na batalha do trabalho, lutando por seus espaços neste palco da efêmera existência, onde encontram muitas cobranças e poucas recompensas.

Quanta ousadia tomou junto ao corpo sem vida de Maria Rosa. Quantas esperanças foram apagadas nas profundezas daquele rio. Mas vamos acreditar que se todos nós ousarmos e não deixarmos fenecer nossas esperanças, estaremos dando vida aos heróis que, como Maria Rosa, perecera, pelo amor ao chão onde hoje nossos filhos correm livres num mundo mais pródigo em oportunidades.

Alzira Scapin – jornalista e pesquisadora da História do Contestado.