Ainda não se conhece a magia usada pelo governo tanto para a geração quanto para a convivência com crises e factóides protagonizados por seus próprios integrantes. Não é o caso de voltar ao esgotado tema do dossiê elaborado por funcionários subalternos da Casa Civil da Presidência da República, decerto em obediência a determinações superiores, transmutado agora numa ópera-bufa da pior qualidade.

O assunto do momento é a substituição de Marina Silva por Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente. Ansioso por deitar falação sobre os temas diversos e atento ao espocar dos refletores da mídia, poucas horas antes de ser recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem trocaria idéias sobre a indicação, batera o recorde da concessão de quatro entrevistas coletivas aos jornalistas do Distrito Federal.

Mesmo antes de ocupar a cadeira ministerial, Minc já fala como titular e sua última intervenção confirmou o que todo mundo está cansado de saber: a derrubada criminosa da floresta amazônica continua a plena carga, conforme alardeiam os números referentes ao mês de abril. E o grande responsável pela ação predatória desencadeada sobre a Amazônia é o Estado de Mato Grosso, em cujo território se registrou o maior avanço do cultivo de soja no atual ano agrícola. Minc não deixou de espetar o governador Blairo Maggi (PR), partido aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, festejado como ?o maior plantador individual de soja do mundo?.

A dificuldade de conciliar as versões produzidas pelo governo e seus aliados, sobretudo em termos da preservação da floresta amazônica, pode ser facilmente detectada na azáfama com que alguns corifeus procuram sombrear o impacto dos números apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sobre a fúria do desmatamento. Todavia, esqueceram de combinar um pormenor indispensável com a direção técnica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão do Ministério da Agricultura encarregado de publicar em levantamentos periódicos as estimativas de safra de grãos, cereais e fibras, além de acompanhar o desenvolvimento das lavouras.

Em seu último levantamento, a Conab revelou que a safra recorde deste ano se deveu à incorporação ao processo produtivo de mais de 700 mil hectares, dos quais 10% estão localizados em Mato Grosso. Ora, se a área plantada aumentou e Mato Grosso figura como um dos grandes contribuintes da evolução, seria natural que os recursos tecnológicos empregados pelos cientistas do Inpe os ajudassem a constatar, como de fato ocorreu, a exagerada diferença para maior. Obviamente à custa da derrubada inconseqüente de árvores milenares que haviam resistido à expansão cobiçosa e descontrolada do agronegócio.

Um dos primeiros factóides do ministro Carlos Minc, qual seja a utilização de tropas do Exército para vigiar as florestas, afastado com um peteleco pela cúpula das Forças Armadas, foi imediatamente substituído pela sugestão de Lula de criar a Força Nacional Florestal, a ser formada por servidores e policiais estaduais. O primeiro a proclamar que não cederá servidores para a dita milícia foi o governador Blairo Maggi, que aproveitou a oportunidade para devolver a alfinetada: ?Não tendo soldados para proteger a floresta, tragam gente do Sul, Curitiba, Porto Alegre?, quem sabe na exegese blairista um valhacouto de mandriões. O governador e sua patota devem estar morrendo de rir.

Como está claro, o ministro Carlos Minc muda de idéia com a mesma facilidade com que troca as peças de sua inumerável e exótica coleção de coletes. Tanto que levantou a bola para o colega Mangabeira Unger, coordenador do Projeto Amazônia Sustentável, marcar seu primeiro gol: ?Este não é o momento para definições prematuras?, numa referência à hipotética guarda das matas. Diga-se de passagem, uma idéia do presidente da República. A solução talvez esteja em convocar o Fantasma, supremo guardião da floresta.