O coração humano está sempre repleto de razões. Aliás, uma lição preciosa deixada por Pascal, hoje tão brilhante quanto o foi a seu tempo. Assim, não chega a ser estranho que o tom agressivo utilizado pelo governador Roberto Requião ao se referir nominalmente ao presidente Lula e sua equipe econômica tenha mudado da água para o vinho.

Basta comparar algumas expressões usadas por Requião, especialmente na administração anterior, quando Lula e os ministros da área econômica eram, a seu ver, re-edições ainda mais dramáticas das pragas egípcias, com o que diz hoje sobre o presidente e ministros da Fazenda e do Planejamento. Já que citamos a saga bíblica da terra dos faraós, é lícito sofismar que na ótica de Requião o presidente é agora visto como um símile perfeito do próprio José, inflexível e fiel depositário que salvou o reino da bancarrota.

Voltando à atualidade, explicação compreensível da repentina reformulação do pensamento do governador pode estar embutida nas entrelinhas do quadro das transferências voluntárias da União aos estados, realizadas no primeiro trimestre do ano em curso.

Para começo de conversa, digamos que esse tipo de transferência de recursos federais não leva em conta os repasses determinados pela Constituição Federal, tais como o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Tampouco considera valores relativos aos restos a pagar não processados, e ao Sistema Único de Saúde (SUS). No popular: é dinheiro que o presidente da República tem a prerrogativa de repassar a quem escolhe e ponto final.

No primeiro trimestre, o Rio do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) recebeu da União apreciáveis R$ 31,02 milhões, ao passo que durante todo o ano anterior, o último da administração Rosinha Matheus, figura não grata em Brasília, o repasse foi de R$ 37,4 milhões. Não é sem motivo, portanto, que Cabral ocupa a vanguarda da fila de governadores encantados com a gestão lulista.

A seguir aparecem Maranhão, Pará e Bahia, também governados por aliados insuspeitos, que em conjunto abocanharam mais de R$ 42 milhões. E o Paraná? Bem, aí o buraco é mais embaixo, e a transferência foi de míseros R$ 2,7 milhões. Desse jeito, não há valentia que resista…