Uma pesquisa divulgada na semana passada pelo instituto QualiBest, de São Paulo, mostra que as raquetadas que a professora Raquel (Helena Ranaldi) leva calada do marido (alguém muito parecido com Tom Hanks), em Mulheres Apaixonadas, causam mais indignação nos homens do que nas mulheres. Dos marmanjos que assistem à trama inverossímil de Manoel Carlos, 92% ficam chocados com as agressões não denunciadas; entre as mulheres, apenas 85% ficam revoltadas. Esse resultado, um tanto quanto rodriguiano, reforça a tese de que as mulheres são mais machistas do que os homens.

No livro Mulheres Alteradas 2, a cartunista argentina Maitena dedicou seis quadrinhos às mães que criam filhos machistas, tratando-os desigualmente. Elas poupam os meninos dos trabalhos domésticos, enquanto negam às meninas a mesma liberdade que dão a eles. O resultado dessa prática é que a evolução rumo à igualdade entre homens e mulheres na família, no trabalho e na sociedade caminha a passos muito lentos.

No Brasil, até 1977, as mulheres que se casavam eram obrigadas a acrescentar o sobrenome do marido. A partir daí essa mudança se tornou opcional, mas muitas mulheres, por sentimento de inferioridade em relação ao homem, continuaram se submetendo a esse costume patriarcal. Com o novo Código Civil, agora o marido também pode adotar o sobrenome da mulher, o que representa um grande avanço. Mas, na prática, falta muito para a sociedade absorver a mudança. O ideal para acabar de vez com o machismo seria se o código estabelecesse o seguinte: ou os dois acrescentam o sobrenome um do outro, ou ambos mantêm seus nomes de solteiros.

Outras desigualdades que ainda persistem são as chamadas “discriminações positivas”. Uma delas é o alistamento obrigatório apenas para os homens nas Forças Armadas, que aceitam mulheres apenas como voluntárias. Há duas soluções possíveis: ou o serviço militar torna-se obrigatório para todos, sem distinção de sexo, como já ocorre em Israel, ou então acaba-se de vez com essa imposição, estabelecendo o serviço militar voluntário.

Também há uma distorção na Previdência Social: sob o argumento de que as mulheres enfrentam uma dupla jornada, entre o trabalho e os afazeres domésticos, elas têm direito a aposentadoria especial. Tal tratamento diferenciado estabelecido por lei só contribui para perpetuar as desigualdades, adiando a divisão equânime das funções de dono de casa entre os dois cônjuges. Enquanto desigualdades como essas não forem corrigidas, continuaremos vivendo em uma sociedade onde a violência contra a mulher é mais aceita pelas próprias mulheres do que pelos homens.

Ari Silveira

(ari@oestadodoparana.com.br) é chefe de Reportagem de O Estado.