Foto por: Monirul Bhuiyan

A África do Sul vive desde o início do Mundial um clima de ‘ayoba’ (felicidade), que toma conta dos estádios e dos ‘fan parks’, onde os jogos são exibidos em telão, mas que se limita essencialmente aos horários das partidas, deixando de fora as cidades que não sediam o evento e muitos estrangeiros que ficam privados de locais onde possam prolongar as comemorações.

“Há um ambiente que une os sul-africanos de todas as cores”, acredita Margo Abrahams, cabeleireira em um bairro turístico da Cidade do Cabo. “Nunca vimos isso em nosso país”, acrescenta, em referência ao regime do apartheid, que chegou ao fim há 16 anos, sem evitar no entanto, que a cor de pele seja até hoje um fator de divisão na vida do sul-africano, inclusive no esporte.

Em um momento tão especial como este, a África do Sul pode estar em um clima de festa como nunca se viu antes, mas no que diz respeito somente ao próprio país, porque a verdade é que outras sedes do Mundial se mostraram muito mais animadas.

Até a partida inaugural, os sul-africanos estavam cheios de fôlego e não paravam de tocar as vuvuzelas um só minuto. Não havia um só lugar sem bandeiras.

A eliminação da África do Sul foi um balde de água fria nos torcedores, que, no entanto, não viraram as costas para a Copa e decidiram adotar o Brasil em substituição aos Bafana Bafana. Gana também absorveu parte da torcida que ficara sem ter motivo para torcer em casa.

Mas depois de tanta animação, com o apito afinal, os sul-africanos ou voltam para casa ou ficam em alguns bares somente até certa hora, porque os estabelecimentos fecham muito cedo, para frustração dos turistas.

Historicamente o apartheid tem uma mão nisso porque durante esse regime racista os negros tinham, sob toque de recolher, que voltar para casa muito cedo e nela ficar até o dia seguinte.

A violência também é um convite para ir dormir cedo, já que é uma média de 50 homicícios por dia, taxa essa de que os sul-africanos fogem, quando podem, nos shoppings, onde realmente existe segurança.

A localização dos estádios, geralmente muito contra-mão, principalmente em Polokwane e Rustemburgo, também tem culpa. O emblemático Soccer City, em Johannesburgo, fica no meio do nada, sem bares ou restaurantes. Nelspruit tem uma situação um pouco melhor, com uns dois ou três estabelecimentos pré-fabricados perto do Mbombela.

Outro fator para essa reação relativamente fria dos sul-africanos é o próprio inverno. Desde o pôr-do-sol, a temperatura chega a 0º, de Pretória a Bloemfontein.

No fim das contas, a festa se limita aos bairros turísticos das grandes cidades, como Sandton e Newtown em Johannesburgo e Waterfront e Long Street na Cidade do Cabo, além da orla de Durban.