Leio numa página da Enciclopédia Britânica que o corpo humano tem cerca de 50 trilhões de células. O número vai por extenso, no título: 50, seguido de 12 zeros. É zero que não acaba mais.

Em face desse número assombroso, astronômico, quase estarrecedor, caio das nuvens. Mas lembro-me a tempo da advertência confortadora de Machado de Assis: é sempre melhor cair das nuvens do que do terceiro ou quarto andar. O Bruxo de Cosme Velho sabia dizer as verdades mais doces com o riso mais amargo. Alguns gênios são assim.

Curiosamente, o número retromencionado é praticamente idêntico, segundo uma revista científica, aos dos hominídeos e homens que há cerca de vinte milhões de anos povoam o terceiro planeta do sistema solar, nesta periferia insignificante da Via Láctea.

É uma coincidência curiosa, estranha. E eu lembro que Bernanos considerava a coincidência, simplesmente, como a lógica de Deus. E a verdade é que o mestre do diário de um pároco de aldeia tinha idéias não raro interessantíssimas. Esta talvez seja uma delas.

Mas voltemos aos 50 trilhões. É pena que, na sua imensa maioria, as referidas células estejam alojadas predominantemente no abdômen, nas nádegas e nas coxas. Fariam muito maior sucesso se integrassem o cérebro. Mas como a perfeição não é deste mundo, contentemo-nos com a realidade daquele que Leibnitz considerava o melhor dos mundos. Para profunda irritação do ácido Voltaire, é claro.

Post-scriptum heterodoxo: a informação colhida da Enciclopédia Britânica vai certamente enriquecer o magro livro dos meus conhecimentos, que não deve ultrapassar cem páginas. Já a minha ignorância ? a dimensão daquilo que eu ignoro, em todos os ramos do conhecimento ? deve ter o volume da enciclopédia, não britânica, mas chinesa, que é bem maior…