O modelo de desenvolvimento adotado pelos atuais processos de globalização está destruindo as condições que ainda tornam possível a vida no planeta e vem se revelando como modelo civilizatório insustentável, por meio da redução acelerada da diversidade genética; da devastação dos bosques; da desertificação dos territórios; da destruição da camada de ozônio e das mudanças climáticas que a atividade humana produz e que leva a desastres naturais. A poluição do ar, o desgaste da natureza e a destruição dos recursos naturais são resultado desse modelo econômico que não se preocupa com o ambiente e com o dia de amanhã e que, além da deterioração do planeta, peca pela concentração de renda.

De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano (1999) as seguintes cifras globais, que resultam do modelo de desenvolvimento existente, são alarmantes:

a – “em 1960, havia a relação de renda per capita de 20% das pessoas que viviam nos países mais ricos e 20% que viviam nos países mais pobres, era de 30 por 1. Em 1990, passou a 60/1 e, em 1997, a 74/1;

b – a quinta parte das pessoas que vivem nos países mais ricos pode contar com 86% do produto territorial bruto do planeta, enquanto 20% que vivem nos países mais pobres contam com 1% desse produto;

c – mais de 80 países têm, atualmente, rendas per capita menores do que possuíam há uma década ou mais;

d – as 200 pessoas mais ricas do planeta duplicaram sua riqueza total, entre 1994 e 1998, para mais de dois bilhões de dólares. Os bens das três pessoas mais ricas do mundo são maiores do que o produto interno bruto de todos os países menos desenvolvidos e de seus 600 milhões de habitantes”;

e – “apesar da renda per capita em todo planeta ter superado 5.000 dólares, um total de 1300 milhões de pessoas conta com rendas inferiores a um dólar diário.” (United Nations Environment Programme, 1999, p. 2).

Esses são alguns dos aspectos que farão parte do contexto da Rio + 10 que ocorrerá em Johanesburgo, África do Sul, em agosto de 2002, após 10 anos da realização da I Conferência Mundial da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida como ECO-92. Líderes do mundo inteiro novamente se reunirão para definir uma política internacional de combate à degradação ambiental. A Agenda 21, acordada na primeira Cúpula, no Rio de Janeiro, será revista item por item. Um dos grandes problemas que a Rio + 10 está enfrentando é o isolamento dos Estados Unidos das discussões ambientais, e a intenção britânica e da União Européia de desviar a atenção dos problemas ambientais e priorizar as discussões sobre a pobreza.

Por ocasião da recente visita do vice-primeiro ministro britânico, John Prescott, ao Brasil, o ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho(2002), afirmou que o Brasil quer centrar a discussão no tema do desenvolvimento sustentável, pois o debate pressupõe mudanças de ordem econômica internacional, de modo que os países em desenvolvimento possam ter acesso aos mercados dos países industrializados.

Nesse contexto de poluição, Morin (2002) afirma que o século XX deixou duas terríveis heranças de morte. A primeira é a da possibilidade de extinção global da humanidade pelas armas nucleares, ameaça que cresce com a disseminação e miniaturização da bomba. A segunda é a possibilidade da morte ecológica, por meio de dejetos resultantes do desenvolvimento técnico-industrial urbano que degradam a biosfera e ameaçam envenenar o meio vivo. A dominação da natureza pela técnica leva a humanidade ao suicídio.

A morte ganha terreno por forças que pareciam dominadas como o vírus da Aids e as bactérias que se tornam mais resistentes aos antibióticos. A morte se reintroduz nos corpos que se acreditavam salvos pelas descobertas da medicina. A morte ganha espaço também nas almas das pessoas pela ativação das forças destrutivas sob o efeito das drogas pesadas que resulta em solidão e angústia.

A proposta internacional é a necessidade de aprender a estar aqui no planeta. Cada pessoa deve inscrever dentro de si: a consciência antropológica para reconhecer a unidade na diversidade; a consciência ecológica que abandona o sonho de dominar o universo e abraça a realidade de conviver sobre a terra; a consciência cívica terrena que se solidariza com os filhos da terra e a consciência espiritual da condição humana que resulta do exercício do pensamento, na autocrítica e na crítica recíproca.

Nós somos a Terra, os povos, as plantas e animais, gotas e oceanos, a respiração da floresta e o fluxo do mar(…). Nós reconhecemos que o sofrimento humano, pobreza e degradação da Terra são causados pela desigualdade do poder. Nós aderimos a uma responsabilidade compartilhada de proteger e restaurar a Terra para permitir o uso sábio e eqüitativo dos recursos naturais, assim como realizar o equilíbrio ecológico e novos valores sociais, econômicos e espirituais (Carta da Terra-ECO-92).

Zélia Maria Bonamigo

é pesquisadora e especialista em Magistério Superior. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná

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