“Se nenhuma providência for tomada, dentro de no máximo 25 anos haverá um colapso mundial no abastecimento de água potável”, alerta a Organização das Nações Unidas (ONU). A escassez de água será um dos problemas mais sérios que o homem enfrentará nos âmbitos sócio, político e econômico, ainda neste século.

De acordo com Wanderley Campos de Oliveira, diretor executivo da empresa Hidropura Ambiental, graduado em Ciências Econômicas e Ciência Contábeis pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Gestão Ambiental pela Uniminas: “É impossível imaginar um tipo de vida em sociedade que dispense o uso da água. A grande importância deste recurso natural escasso foi apresentada de forma objetiva e clara, através da Carta Européia da Água, promulgada pelo Parlamento da Europa, em 06/05/88, a qual destaca: ?Não há vida sem água?. Usar a água de maneira imprudente significa abusar do patrimônio natural”.

No Brasil, formadores de opinião pública, ONG(s) e autoridades procuram alertar e conscientizar os cidadãos. No entanto, a população, apesar de sofrer com a crise e o rodízio do abastecimento, não faz uso racional da água. Não é preciso ir longe para comprovar o desperdício. Ao lavar um carro são gastos, em média, de 215 a 560 litros de água tratada. O ato de lavar a calçada por meia hora, com a mangueira aberta, pode equivaler a um gasto de até 280 litros d?água.

Em Uberlândia- terceira maior cidade de Minas-, por exemplo, os dados da Prefeitura Municipal confirmam que existe um desperdício de aproximadamente 33% da água tratada no município. “É um contra-senso tratar a água e depois desperdiçá-la”, analisa o prefeito Zaire Resende.

Apesar de a água cobrir mais de 70% do planeta, 98% dela é salinizada e imprópria para o consumo humano. A oferta já foi atropelada pela demanda em quase todo o mundo. O consumo exacerbado e a poluição fazem da água um recurso natural cada vez mais valioso.

Segundo o Jornal Economia, para marcar a passagem do Dia Mundial da Água, a ONU realizou em Paris, uma conferência internacional com a participação de 114 países. No encerramento, o presidente da França, na época, Jacques Chirac, lembrou que em dezenas de nações da África, do Oriente Médio e da Ásia Central, a água potável tornou-se uma das riquezas mais cobiçada; mais que o petróleo. A tal ponto, que conflitos pela água colocam mais de 60 países em pé de guerra.

O prefeito de Bagdá, Iraque, Mohamed Dib, em entrevista com Joelmir Beting, disse: “o barril de petróleo custa pra nós US$ 2,50 e vale US$ 35. Importando água mineral da Bulgária por US$ 110 o barril (de 169 litros), ou seja, procuramos um recurso que nos custa UR$ 110 e descobrimos um recurso que contabilizamos por UR$ 22 na troca de água com a Bulgária. Um barril de água vale cinco barris de petróleo. E a cotação do ouro hoje é de U R$ 35 o grama”, informou o gestor ambiental Wanderley Campos de Oliveira.

Em Uberlândia não estamos muito distante da realidade e das preocupações que assolam as capitais e o mundo. Para Wanderly, “se analisarmos que a água mineral em recipiente de 20 litros custa pra nós R$ 2 e que 30 mil litros de água tratada fornecida pelo Dmae custa R$ 9, teoricamente, nesta análise, concluiremos que no futuro gastaríamos 6 mil reais para pagarmos a fatura de água por mês”, analisa ele.

“Este fato já ocorre em diversos países do Oriente Médio e do Golfo Pérsico. O Brasil já é um fornecedor de água potável para os EUA através da estação de tratamento de água de Manaus-AM. De acordo com o percentual favorável de volume de água no Brasil, esta riqueza será explorada economicamente e terá rubrica nas exportações, favorável nas contas de balanço de pagamentos…”, acrescenta.

De acordo com os dados da UNESCO, a terra possui 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Desse total, sobram 2,5% de água doce, tanto líquida como congelada. De toda a água utilizada no planeta, 10% vai para o consumo humano, 20% é para uso industrial e 70% é usado na agricultura. Estima-se que em 2030 a população mundial atingirá oito bilhões de pessoas e que haverá a necessidade de aumentar a produção de alimentos em mais de 50% para atender a demanda da população mundial.

Mas, haverá água em abundância no futuro, se a população continuar desperdiçando-a? Como podemos nos prevenir contra as privações e a escassez de água por vir?

Especialistas acreditam que os aqüíferos podem, em parte, suprir a necessidade de abastecimento no Brasil. Durante o Workshop Aqüífero Guarani ? Potencialidades para o Estado de Minas Gerais ? foram abordados temas que convergiram para o estabelecimento de 14 diretrizes para a gestão integrada dos recursos do Sistema Aqüífero Guarani e os demais aqüíferos a eles associados (Bauru e Serra Geral) em Minas Gerais.

“Destas diretrizes, uma mereceu destaque: Incluir nos ?Planos Diretores? municipais programas e políticas que promovam a conservação das águas. Este tópico envolve principalmente cumprimentos de regulamentações junto aos Órgãos gestores de recursos hídricos, no âmbito federal, estadual e municipal. Fiscalização na autorização de perfuração de poços tubulares, outorgas de uso da água para os já existentes e, principalmente, o monitoramento e capacidade de produção dos recursos hídricos no caso de precisar desta água para atender a uma demanda ocasionada por fatores adversos”, conta Wanderley.

Em contrapartida, para o gestor ambiental, se continuarmos tratando a natureza de maneira irresponsável, o futuro nos reservará um mundo devastado e sem recursos. Investimentos na educação, a consciência ecológica e a ação prática são essenciais. “Não vale a pena quebrar para depois consertar, poluir para depois limpar. O grande contraste social e econômico distancia o homem da condição de cidadão e do reconhecimento ecológico”, declara Wanderley.

“Na prática, podemos fazer muitas coisas, como economizar água tratada, respeitar o ciclo da água, usar a água limpa com economia, cobrar dos governantes a criação e cumprimento de leis que protejam a natureza, dentre outras. Conscientizar a população para as questões ecológicas é importante para a conquista de um futuro com água potável e com saúde para toda a humanidade”, conclui ele.

Com o objetivo de minimizar o desabastecimento, a cidade de Curitiba (PR) dá o exemplo e investe em idéias simples e criativas: os recursos pluviais são captados na cobertura dos prédios para serem aproveitados na rega dos jardins e hortas, lavagem de roupa, veículos e calçadas.

Percebe-se que a água pode trazer tanto a vida como a morte, dependendo apenas de como for usada. A população deve saber que aquilo que desperdiça e destrói hoje, fará falta para as gerações futuras. Sendo assim, o cidadão consciente e participativo deve ter sempre em mente que é tempo de economizar.Em outras palavras: Sabendo usar, a água não vai faltar.